A Semana de Arte Quem quer que tenha ido à mostra da Semana de Arte (continuação da nona edição - pesquisa em arte), na Casa de Cultura da UEL, em cartaz até o dia 27 de junho, não pôde deixar de reparar em dois trabalhos expostos, em particular, que contrastam pelas propostas quase opostas, entre um e outro, de suas poéticas.
Trata-se das obras de Cláudio Garcia e Ana Maria Tavares. O primeiro artista, professor atuante na cidade Oficina de Artes Visuais, ao lado do circo Funcart realiza um trabalho onde palavras, texturas, cores, gravuras e colagens são apresentados em objetos de parede e livros de artista, denominados, cada um, de ''Livro das Horas''. O segundo artista atuante em São Paulo e professora da Escola de Comunicação e Artes da USP apresenta uma instalação em outra sala, feita com três barras metálicas, formando dois corrimãos e com um áudio onde se ouve locutores narrando o trânsito de uma grande cidade na hora do rush.
Duas propostas Enquanto em Garcia, o trabalho nos convida a entrar dentro de sua subjetividade, nos colocando diante de uma visualidade táctil, diria, sentimental, em que figuras de santos e textos fragmentados se juntam em um resultado plástico formal, em Tavares, a direção vai em sentido oposto, quer dizer, o trabalho aponta na direção da rua, da cidade, ou seja, para fora do próprio objeto exposto, além daquele local instalado.
Ali, a narrativa como lugar de passagem, mas uma passagem que se abre a outras passagens, idênticas ao que está sendo apresentado. O espectador acaba se tornando, também, um participante da obra.
É como ir a lugar nenhum e chegar a nada. No caso, do corrimão à pequena sala vazia do antigo prédio adaptado para se transformar em Casa de Cultura. Ao voltar o corpo daquele lugar, em direção à saída, depara-se com a rua, adiante da porta de vidro, onde a cidade se descortina em seu trânsito de carros e gente, sua arquitetura de concreto e sua indefectível atmosfera urbana.
Subjetividade e conceito Enquanto em Garcia o trabalho nos convida à interiorização, nos apelando aos sentimentos, em Tavares o trabalho poderia ser lido como algo cerebral, conceitual. Ali não há o apelo visual que há no outro, nem manufatura, nem a mão do artesão, do virtuose em seu ofício. O que existe é uma idéia colocada em pé.
Não há como compará-los como melhor e pior, um em relação ao outro, como se fosse uma competição. Ambos trabalhos estão expostos como arte para serem desfrutados, embora seja possível pensar que, desde pelo menos o advento do Dadaísmo no início do século passado a obra e a idéia de arte têm sido marcada por abordagens em que sentimento e conceito às vezes se chocam e às vezes convergem na mesma direção. E no evento da Semana de Arte, esses dois exemplos de poéticas singulares podem ser conferidos.

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