ALFABETO VISUAL - Explicar e mostrar: relações entre texto e imagem
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de agosto de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha2 
Com a oportunidade de falar do trabalho de mais de 50 artistas que fazem parte da exposição ''Londrina Artes Visuais'', deixo-me tocar por um ou outro que me leva a discutir sobre questões mais próximas para mim, no momento, sem dar a isso um julgamento estético de hierarquia de valores. O que penso ser melhor ou pior em arte e, especificamente, nessa exposição, não caberia aqui como análise, pois é preciso levar em consideração que a arte de um povo é realizada dentro de um contexto definido onde o tempo, o espaço e aquilo que a sociedade vive na época é o que conta. E não aquilo que gostaríamos que as obras estivessem dizendo, hoje, fora daquela situação. Porque não é só uma questão de gosto, mas das questões que um certo grupo elege como sendo prioridade para ser dito, ser expressado, naquele momento.
Feita tal consideração, gostaria de deixar os olhos da memória percorrerem o ambiente da Casa de Cultura da UEL e do Museu de Arte de Londrina - onde estão sendo expostos os trabalhos de arte - assim, sem muito me ligar na coerência das relações que cada obra que me vêm à lembrança possam ter umas com as outras e, entre elas e o espaço onde estão sendo apresentadas. E entro pelo enorme portão que dá acesso à parte da mostra, intitulada ''Corpo e Identidade'' voltando-me para um enorme gorila pintado em uma tela, com uma palavra escrita em vermelho, onde se lê Braque.
Gosto da pintura, ela me alegra. O ''Gorila'' tem um ar de estranhamento e, não sei se sou eu quem estranha aquela figura me estranhando ali, ou se é ela que se sente estranha com a minha presença. Mas é como um primeiro encontro, em que um não sabe quem é o outro. Logo depois, até sentimos simpatia em sermos estranhos.
Corro já (a idéia voa, a imaginação atravessa paredes, a memória é seletiva) para outra sala onde tem mais pinturas do mesmo autor que pintou o nosso parente, o ''Gorila''. São pinturas do artista e professor Danilo Villa. Em uma das pinturas há um coelho peludo. Ao lado desse coelho, uma outra pintura, em prata, de um coelho pulando, cercado por parênteses (coelho). Assim como o gorila, são imagens charadas, enigmas da história da arte para se decifrar, citações de trabalhos de outros autores que influenciaram o artista. Mas que podem ser vistas, também, como cópias de outras pinturas, pois não necessitam, necessariamente, de comentários para existirem para ser aquilo que temos à nossa frente e nada mais.
Mas há um jogo com palavras, além do jogo das imagens. Danilo já tinha feito uma exposição antes naquele mesmo espaço e alguém me disse, à época, que achava uma vergonha os organizadores do espaço exporem cópias do trabalho de outros artistas consagrados. Essa pessoa ainda apelou para a importância e a necessidade da criatividade e da originalidade. E eu perguntei se ela tinha entrado na exposição e ela disse não. E eu perguntei se ela sabia que havia textos nos quadros e que eles faziam parte do trabalho e, só aí, a pessoa começou a achar que o trabalho valia a pena ser visto.
No filme ''Minha Música'', o diretor Jean Luc Godard interpreta ele mesmo e dá uma aula sobre texto e imagem num evento de literatura. Em certo momento ele exemplifica a relação entre texto e imagem, falando de dois estrangeiros que foram passear na Dinamarca e, passando por um castelo, um deles olhou e disse que aquilo era apenas mais um velho castelo. Ao que o outro respondeu, que era apenas um velho castelo, mas era o castelo de Hamlet. E isso mudava toda a paisagem. Ou seja, na relação entre texto e imagem, muitas vezes uma muda todo o sentido da outra. Como se um mais um não fosse apenas a adição de uma continuidade entre ambos, mas a criação de um terceiro elemento, distinto dos outros dois, que dá outro sentido ao conjunto. Como acontece nos filmes de Sergei Eiseinstein (Rússia, 1898-1948) - que tão bem entendeu o espírito do poema japonês, hai-kai - duas tomadas de cena revelam uma terceira ação, que é de continuidade e que explica as outras duas anteriores. Onde texto e imagem revelam uma terceira possibilidade de discurso. Como no gorila onde se lê, ''Braque''. Ou nos coelhos, que são imagens de Durer e Iran do Espírito Santo, mas se lêem os nomes de outros artistas, como Beyus e Duchamp. No caso de Beyus a charada é evidente com a imagem do coelho, com a qual ele fazia relações o tempo todo em seu trabalho. No caso de Duchamp é a própria idéia de tirar o coelho da cartola, que é como ele tratou de pensar a arte que fazia. Quem quiser saber mais vai ter que ver os trabalhos expostos. E pode perguntar do que se trata aos monitores da mostra, que estão lá para isso mesmo. Arte é conhecimento sensível, sim. Mas não exclui a explicação.


