Por motivo de ocupação deste espaço, temo, teimo, temos de pensar nas
consequências das palavras que nos posicionam neste lugar.

Primeiramente porque elas podem estar fora do contexto e ''soltar um
bola-fora'' é perder a chance, no mínimo, de resguardar o silêncio. Quer
dizer, marcar gol é ter o que dizer e saber fazê-lo na hora certa. Depois,
outra: ocupou, tem que saber o porquê, quando, como, onde e quando ocorreu a
ocupação. Ou melhor, fazendo disso sua ocupação. Ainda mais se o termo
ocupação deixa de ser um atributo funcional e passa a fazer parte de uma
situação ideológica. Ocupar ou invadir, eis a questão?

O agravavante ocorre quando o próprio motivo pelo qual a palavra é usada,
volta-se contra aquilo que antes se defendia, quando dizíamos que ocupar era
tomar por direito um espaço, ainda que forçosamente, como se tratasse de uma
posição de luta frente às injustiças dos soberanos, de resistência contra o
poder tirano, de oposição ao inimigo opressor. Quando a ocupação da palavra
cujo verbo é ocupar era sentida como uma decisão de quem não quis ficar à
margem, desocupado, ou, excluído.

Ocupar a página de um caderno diário divagando em torno de uma palavra é
como tentar um delírio léxico, em nosso caso, que nos permita compreender
que a arte da ocupação pode ser encarada, também, como uma das ocupações da
arte. Explico: ocupar é relativo à percepção de um tempo e de um espaço.
Relativo também a um modo de produção deste espaço. E do tempo gasto para a
produção deste espaço. E se refere tanto à ocupação de uma tela branca com
tinta em um quadro pintado - seja uma paisagem, um retrato ou uma abstração
- quanto para a ocupação de um lugar qualquer, de uma cidade, ou do planeta,
ou do cosmos.

Vamos nos ocupar com a arte e suas consequências, uma vez que a reverberação
de uma ação é contínua. E como aprendemos na escola: toda ação corresponde
uma reação. E porque falar em ocupação, pura e simplesmente, nos remeteria à
''ocupação'' do Iraque pelas tropas dos E.U.A., à ''ocupação'' israelense na
Palestina, ou, como se fosse um outro lado da moeda, à ''ocupação'' do MST, no
caso da reforma agrária. Ao ocupar um lugar, deixamos outro desocupado.

Obviamente é sabido que a arte, ainda mais hoje em dia, tem fortes
conotações políticas. Principalmente depois da chamada política do corpo,
política do comportamento e ou da microfísica do poder, um conceito forjado
por Michel Focault, onde a idéia de mudança não se refere mais a
macro-estruturas, mas por pequenos exemplos cotidianos. E mais, se não
levarmos em conta as relações de poder - que são as relações de produção na
sociedade industrial pós Marx - podemos pensar estar fazendo um trabalho de
ocupação genial, quando apenas nos tornamos um veículo de reprodução de uma
ideologia que nos chama a ocupar um espaço que não pode mais ser preenchido
por uma justa ocupação, ou justa causa, como quiser.

Mas é preciso pensar além. E pensar além pode ser pensar antes. Porque nem
tudo é ideologia ou política, no sentido panfletário do termo. Primeiro
porque os contextos mudam. O que significava atraso ontem, hoje pode
significar avanço. Por exemplo, se fossem os ingleses a colonizar o Brasil,
como aconteceu com os EUA., com sua sede (e competência) por
industrialização, teríamos ainda a floresta amazônica? Se o famoso Manto
Tupinambá não estivesse, hoje, em um museu na Europa, será que o teríamos
conservado sob nossos auspícios?

Ocupando o ar da sala onde termino de ocupar esse espaço da coluna do
jornal, penso no poeta japonês do século 17, Matsuó Bashô, ocupado em
escrever hai-kais enquanto atravessava o Japão à pé. Ou no artista Robert
Smithson, nos anos 60, e seu trabalho ''Monumento de Passaic'', que consistia
apenas em tirar fotos de lugares, que ele denominou de ''non-sites'', ou, não
lugares, simplesmente caminhando entre construções e estacionamentos de sua
cidade, nos Estados Unidos. Sem se ocupar com nada. Não que isso nos
desocupe das ocupações, seja do Iraque, da Palestina, ou do MST...



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