ALFABETO VISUAL - Escultura social Arte como cura
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de outubro de 2006
Rubens Pillegi Sá<br> Especial para a Folha2 
Arte como cura
Foi o artista alemão Joseph Beuys quem criou o termo Escultura Social, no começo dos anos 70, ao juntar pessoas em volta de um parque público, impedindo a extração de árvores do local para a construção de edifícios. Beuys, para quem não sabe, foi um dos inspiradores da criação do Partido Verde na Alemanha e um dos mais influentes artistas da segunda metade do século passado até hoje. Via na arte o remédio para curar os traumas psíquicos, sociais e ecológicos da sociedade.
Aqui no Brasil a Escultura Social foi realizada, pela primeira vez, nos anos 80, sob o comando do ativista e militante, hoje deputado federal pelo Partido Verde, Fernando Gabeira, que convocou as pessoas para se abraçarem em volta da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, para defendê-la da poluição.
Caos e intolerância
Mas não é sempre que o agrupamento de pessoas em defesa de uma causa pode ser considerado uma ''Escultura''. Um coletivo social pode ter em vista apenas a defesa de interesses de classe, como foi, por exemplo, a ''Marcha de Deus com a Família pela Liberdade'', em várias capitais do país, reunindo setores reacionários da igreja e da sociedade, dando sustentação ao Golpe de Estado praticado pelos militares, em 1964.
Um tipo de manifestação, aliás, não impossível de ser vislumbrada no Brasil, hoje, dada a polarização crescente entre duas visões que se contrastam quanto aos rumos a serem tomados nos próximos anos. Vide o clima das eleições que se aproximam. A disputa no Paraná virou uma guerra. E, na cidade de Londrina, particularmente, a intolerância gera um sentimento fascista onde a estupidez do grito se confunde com a voz de ordem dada aos descontentes.
Qualquer papel de bala jogado na rua se torna motivo para falar mal das ''autoridades públicas'', principalmente dos políticos no poder, que se tornaram o alvo privilegiado dessas acusações. Claro que suas atitudes são passíveis de crítica - e isso é parte do jogo democrático - mas a população não deveria ficar apenas na crítica em relação aos rumos que a cidade vem tomando. Muitas vezes é a falta de organização por parte dos próprios moradores que gera o caos. Cada um querendo defender apenas o seu lado, sem se importar por ter sido ele mesmo quem jogou o papel de bala na rua que agora entope o bueiro.
Temas para debate social
Dois exemplos merecedores de uma ação popular que poderia vir a se tornar ''Esculturas Sociais'' estão na greve dos servidores municipais que se arrasta sem solução e no duvidoso leilão da Usina Hidrelétrica Mauá, no Rio Tibagi (entre Ortigueira e Telêmaco Borba). Projeto que revoltou ambientalistas, pesquisadores e povos caingangues, que têm cinco aldeias na Bacia do Tibagi.
Em relação a greve dos servidores, a população poderia se organizar e chamar os dois lados para um debate público visando a encontrar um meio termo que possa servir a ambos. E que a população volte a ter os serviços pelos quais se pagam impostos. Uma organização nesses moldes se deu, entre 2000 e 2001, em Londrina, mesmo, quando artistas e produtores culturais, descontentes com os rumos da política cultural do município, na gestão anterior, se organizaram para exigir definições para o setor.
Já na questão da Usina Hidrelétrica, o problema fica por conta do relatório de impacto ambiental que não leva em consideração a população ribeirinha, aldeias indígenas e mesmo a diversidade da flora e da fauna local. Em nome do progresso (Para quê? Para quem?) vão criar uma paisagem monótona e sem vida. Um deserto líquido.
Mobilidade no caos
A arte não pode, de fato, ser e estar confinada a museus e galerias. Até, porque, toda arte é social. Subjetividade não quer dizer fugir à realidade. E cidadania não é reclamar direitos sem se dar conta dos deveres. O caos interessa aos setores reacionários da sociedade, que se dizem capazes de resolver a situação através da repressão e da venda do patrimônio comum, entregue a terceiros. A arte se move no caos, mas configura relações de harmonia entre as diferenças. E é nessa possibilidade que a ''Escultura Social'' deve agir, procurando criar relações de harmonia entre o homem e o seu meio.


