Quando se fala em sofrimento de artista, logo nos vem à cabeça a imagem de um Van Gogh incompreendido em seu mundo de cores, que veio à vida para nos deixar o legado de uma produção exuberante e revolucionária. Não há como deixar de
compará-lo ao próprio Cristo e sua dor na cruz, nem deixar de levar em
consideração o velho senso comum de que artista só é reconhecido depois de
morto.
Se até as ruas de Paris foram consideradas um dia escola de arte, com nomes
representativos como Picasso e Modigliani, por exemplo, então pode-se pensar
que a arte é um fenômeno que se aplica a qualquer situação onde se necessita de heróis para que seu surgimento, em que seres abnegados sempre estarão dispostos a mostrar seu valor para a humanidade.
Portanto, independente das condições confortáveis para o seu desenvolvimento - como uma Fênix a ressurgir das cinzas - ela sempre é capaz de nos proporcionar novas visões das coisas do mundo. Mas isso impõe também que o artista deva sofrer para que sua arte seja potente. E, mais duro, que só em condições desfavoráveis a arte pode ter valor.
Mas usar Van Gogh como exemplo de uma época e aplicá-la aos dias de hoje pode ser uma armadilha em que muitos não conseguem dar conta de seu perigo. Primeiro porque o Van Gogh visto hoje está impregnado de toda uma mistificação que torna seu valor de mercado tão importante quanto seu valor artístico e depois - como o acontecido com a Escola de Paris - existe o fato de que muitos outros sequer aparecem na lista dos artistas da época. E tudo fica reduzido àa saga daqueles que ficaram para a história.
Pois bem, mesmo que tenha acontecido (e que aconteça) essa situação de marginalidade a ser rompida, até se chegar ao reconhecimento final, o que é que isso muda em termos de valores para a humanidade e o que isso significa a cada um de nós? Que mundo, ou que estado diferente de alma seria esse que o artista deseja atingir? Que mudança a arte espera operar na sociedade?
Em primeiro lugar - e deixando um pouco de lado a paixão - observamos que muitos feitos revolucionários foram cooptados a se tornarem oficiais e acadêmicos, mesmo a contra gosto. O próprio Van Gogh. Ou as pinceladas violentas e pré-impressionistas de um Delacroix. Ou a visceralidade de um Artaud. Em segundo lugar que a sociedade vive hoje de relações funcionais, em que o indivíduo vale pelo que tem e pelo que faz, ficando assim mais fácil assumir um papel que já lhe é dado sem que se questione sobre os princípios ideológicos que fazem movimentar o circuito. Vivemos a era da técnica onde tudo se torna uma questão de estatística, cálculos, probabilidades, muito mais do que os conceitos flosóficos que fundamentam nossas atitudes.
Sem dúvida esse é o debate, o embate e o grande desafio dos nossos tempos e se a arte será ou não apaixonante e revolucionária doravante, isso dependerá de sua capacidade de se inserir e de ser inserida socialmente.
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