ALFABETO VISUAL - Entre a ruptura e o vandalismo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de novembro de 2005
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2 
Conversando com uma amiga sobre essa aventura contemporânea da arte, qua
se faz expandida, alongada, alargada, comecei a pensar sobre o quanto a
instituição tem responsabilidade sobre o fazer do artista, e se seria seu
dever comprar bandeiras de movimentos não-artísticos, ainda que justos.
Levando em consideração que, quanto mais a arte sai de seu terreno seguro,
diria, modernista, no sentido de discutir seu próprio fazer tautologia é a
palavra mais ela fica exposta em uma fronteira cuja única baliza para
dizer se uma ação está correta ou não, é a ética. Quer dizer, nessa relação
entre arte e vida, que tem no artista alemão Joseph Beuys (1921-1986) um
ícone, quando propõe uma relação entre a ética e a estética. E mais, mostra,
aceita e afirma a diversidade cultural como exemplo das várias
possibilidades de existência no planeta, ao invés de impor a globalização,
ou a monocultura, como padrão de vida.
Sim, conversávamos sobre essa postura artística que é digna da ''tradição de
rupturas'', vamos dizer assim, desde o Futurismo, pelo menos, passando por
Dada, Situacionismo, Fluxos e Fluxus. Ou seja, desses movimentos artísticos
que vêm desde o começo do século 20. E, também, por conceitos e idéias
ligados à questão estética mesmo, ou, do mundo da estética, como, por
exemplo, foi o caso do artista dos EUA, Robert Smithson (1938-1973), e
daquele pessoal todo que fizeram coisas que não se despregam da questão da
forma, mas avançam em direção a outros meios e materiais e modos de se
fazer, exercitar e pensar a arte.
Porque uma coisa é vir apresentar um trabalho em uma instituição e, naquelas
de ser artista radical, tocar fogo no museu, na galeria, nas pessoas. E essa
ação ser um ato de vandalismo, de terrorismo. E outra coisa é vir
independentemente do convite institucional e ''assaltar'' a instituição, a
oficialidade. E tomar para si a responsabilidade da ação.
Claro, essa questão da ''tradição da ruptura'', muitas vezes, serve para
testar os limites da institucionalidade, da oficialidade. Não no sentido de
''vamos pregar uma peça neles'', mas de ousar propor trabalhos cujos reflexos
alcançam certa importância que estão além dos limites da galeria de arte.
Penso no ''Barroco Balcânico'' da artista iugoslava Marina Abramovic, de 1997,
que ganhou o prêmio da Bienal de Veneza, expondo e limpando as chagas dos
conflitos daquela região, que é um barril de pólvora étnico. Penso, também,
no projeto ''Vazadores'' de Rubens Mano, na Bienal de São Paulo, de 2002,
criando uma porta aberta aos visitantes, ao lado da portaria. E em tantos
outros, como o buraco, ao invés da foto, mostrado na mostra ''Panorama 2001'',
no MAM, em São Paulo, da paulistana Carla Zaccagnini.
Mas essa coisa de arte e vida corre o risco, também de virar puro pastiche,
puro folclore, pura estetização, como acontece com o trabalho de vários
artistas que antes eram de uma aspereza resistente a qualquer tipo de
domesticação, mas depois perdem a força quando ele passa a ser chamado para
as mais finas instituições para mostrar a sua arte. De novo, a rebeldia
engolida. Se bem que, em primeiro lugar, talvez fosse isso que o artista
queria desde sempre. Depois que, esperar uma revolução por dia nos nossos
heróis, chega a ser desumano.
O fato é que a destruição é parte, sim, dessa questão da ''tradição de
rupturas''. Mas a arte se realiza quando é capaz de propor ao mesmo
instante em que destrói a construção. Pois o caos pelo caos, o informe
pelo informe e a crítica pela crítica não produzem metáforas, símbolos, não
agem sobre a matéria. E é sobre isso a questão, a meu ver, da arte. Mas é
preciso estar atento, para não cristalizar idéias e ações e nem ignorá-las,
presunçosamente. Nesse sentido, sim, tudo pode ser arte, desde que arte seja
consciência.
[email protected]


