ALFABETO VISUAL - Encontrando a década perdida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de julho de 2005
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Posicionamento político e estético Os anos 70 viveram a intensidade do que fora plantado nas décadas anteriores. E sua parte mais visível foi quanto ao modo de se comportar de toda uma geração. Sexo livre, paz & amor, a imaginação no poder, etc. faziam parte dos discursos que exigiam liberdade para se vestir e ser do jeito que se quisesse.
Desenvolvendo questões como noção de autoria, formação de grupos, abolição do quadro, institucionalização, comercialização da arte, arte enquanto idéia, desmaterialização, instalações e performances, entre outras, as artes visuais passavam a incorporar, de vez, a ação, o processo, a atitude como parte intrínseca de sua manifestação. Uma posição, sobretudo, frente ao contexto político, social e até artístico, muitas vezes buscando refutar todo tipo de sistema, considerado opressor.
Década perdida Mas nos anos 80 tudo isso pareceu se eclipsar diante do fato de que a abertura política não trouxe, necessariamente, novos conteúdos para o pensamento estético; diante do fato irremediável que, talvez, fosse tarde demais para se construir uma cultura interessada em se aprofundar no que se convencionou chamar de ''crise''; e, com as expansões do comércio globalizado, o divertimento e a industria do entretenimento passaram a ocupar um plano superior ao debate cultural. Baixa qualidade informacional sempre rendeu muitos bons negócios. A arte fica em segundo plano!
Além disso, com surgimento da AIDS, o discurso moralista ganhou a força que precisava para conter toda espécie de experimentação e o jovem hippie acabou querendo se tornar o executivo yuppie da 5 Avenida, vendido como símbolo de conquista e poder.
O terreno estava livre era para as revisões, para a alienação na política, para a ''volta à pintura'', para a música melódica e repetitiva dos bits computadorizados ''bate-estacas'' e para a incredulidade que viria a se acentuar nas décadas seguintes. ''Charrete que perdeu o condutor'', na voz de Raul Seixas, que não suportou o fim da ''década perdida'', como ficou conhecida a década de 80.
Década achada Agindo quase como grupo de resistência cultural, à base do ''a pau, a pedra, a fogo e a pique'', apareceram, nessa mesma década ou, como se em toda vitória, também não tivesse contido o germe da derrota músicos e compositores como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Língua de Trapo, Joelho de Porco e outros que, em certo momento estiveram na linha de frente da música popular, como Fagner (Ave Noturna) e a turma do nordeste, Ângela Rô Rô, Cazuza, rock nacional, etc. etc.
E as performances e ações e intervenções também não pararam. No Rio de Janeiro, durante uma apresentação do músico e compositor de vanguarda, John Cage, os artistas Alex Hamburger e Márcia X. e Jocy de Oliiveira invadiram o palco e, como bons maus filhos, de chupeta na boca e triciclos infantis de plástico, ''assaltaram'' a cena do consagrado artista internacional.
Também, no Rio, durante uma palestra do curador italiano Achille Bonito Oliva responsável pela ''retomada na pintura'' pelos artistas, nos anos 80 um grupo de artistas ''tomou'' a cena, entrando com cadeiras de roda, espelhos retrovisores nos olhos e bandeja com radinho de pilha, servida ao palestrante, que se lançou sobre o artista Ricardo Basbaum, vociferando que eles eram todos uns ''passadistas'' subdesenvolvidos.
Também no cenário literário, poetas como Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e vários outros preferiram seguir a trilha aberta pelos benditos malditos, como Glauco Mattoso e Roberto Piva, por exemplo, a seguir os cânones da ''boa'' e comportada poesia já digerida pela academia.
Enfim, se a situação não favorecia à presença de um tipo de arte e comportamento mais intenso, ao menos tornou a ''carne mais dura'', embora nem todos os dentes da boca puderam ser conservados e, para alguns, foi simplesmente insuportável viver esse momento, o que, de certa forma, foi mais digno do que os que continuam por aí, vivos, mas, mortos.
Diferenças Fazer uma diferenciação entre individualidade e individualismo, bombardeio de informação e comunicação, mundialização e globalização, copyleft e copyright, experimentalismo e alienação, talvez seja uma boa medida para quem está chegando agora e pensa que os anos 80 foram apenas servidos de ''ursinho pim-pão'', ''ursinho blau-blau'', ''sertanojo'', xuxas e angélicas, consumismo e cocaína.
Voltando os olhos àquela ''já longínqua'' década, dá para entender que os artistas mais instigantes e inquietos que atuaram (e muitos ainda atuam) na época não estavam interessados em retomada ou novidade de certas práticas passadas, mas simplesmente de continuidade de um processo iniciado décadas atrás. Coisa que o velho discurso da modernidade simplesmente não suporta, se não vier ironicamente com o rótulo de ''novo''.
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