Aparentemente inofensiva à primeira vista, quando se toca na questão agrária em nosso país, até de arte é difícil falar, uma vez que tal território se localiza em um campo cheio de disputas pela terra, onde o boi, o pasto, a soja, ou melhor, o latifúndio e a monocultura dominam com cercas de arame farpado o lugar onde o homem sem-terra deveria estar trabalhando e vivendo.
Tocando nesse assunto de questão agrária ligada à arte, não se pode pensar uma Arte Rural sem falar nos exemplos locais. Seria fazer o mesmo que um imigrante pintor de paisagens, que ignorasse a cor que vai do vermelho ao roxo do Norte do Paraná e fizesse uso da mesma paleta de cores que usava em sua terra natal. Seria desprezar o que a terra produz para impor a ela uma plantação exótica. O que, de fato, aconteceu em todo o Novo Mundo. Cultura só a Européia...
Não que seja necessário usar a própria terra como cor. Embora na arte isso possa agregar valor ao trabalho artístico, ganhando originalidade em alguns casos.
Como sabemos, para a arte contemporânea, nem só a pintura com terra pode ser realizada, mas usando a própria terra como suporte para alguma obra ou processo artístico, é possível criar artisticamente, também.
Não significa que só pelo fato de se fazer algo original ou extremamente ligado à terra isso se tornará arte, mas desde que exista uma intencionalidade para tal, até a criação de porcos em um chiqueiro pode remeter - se não a uma obra de arte - a alguma questão sobre ela.
Arte é linguagem e não meio. Não adianta usar recursos tecnológicos e digitais para buscar efeitos ''artísticos''. Tanto faz ser pintor ou cyber-ativista se não se tem o que dizer com aquilo que se faz.
Mas é preciso tomar cuidado, também. Hoje em dia a questão da arte ligada à ecologia está se tornando algo bastante presente. Os artistas estão interessados em agir nos contextos locais participando da realidade na qual estão inseridos. Mais do que a própria terra, sua matéria-prima é a realidade. Compreendem que a arte vai além do quadro pendurado na parede para enfeitar a sala de estar. Fazem questão de participar, também, do circuito que instaura a noção de que algo seja ou não ''artístico''.
Fazer um trabalho ligado à terra, estressando mais ainda seu entorno, seria um contra-senso para o que estamos chamando aqui de ''arte rural''. É preciso pensar que a paz no campo, por exemplo, é mais do que criar boi no pasto para aumentar o efeito estufa, ou ter os rios, flora e fauna mortas, cedendo lugar à monotonia da paisagem imposta pela monocultura só por conta da questão econômica.
Na direção dessa interface entre arte e ecologia, a Fazenda Bimini, em Rolândia, pode ser um dos nossos exemplos. Realizam cursos e desenvolvem outros trabalhos que poderiam encaixar-se tanto na questão agrícola, quanto na questão da preservação ambiental, com desdobramentos que buscam dar ao visitante um espaço para a experimentação sensorial do ambiente rural, como se fosse um grande museu ao ar livre.
Filho de um pintor que veio da Alemanha, Daniel ''Bimini'' conta que a fazenda começou com seus avós, em 1936. E dá mais detalhes do lugar: ''A idéia é repartir um espaço, mostrar coisas antigas da época do café, campos experimentais com árvores, fazer uma trilha para cegos e oferecer essa também aos não cegos. Pintar com tinta da palmeira juçara, questionar os moldes...''. Perguntado sobre a relação entre arte e tecnologia, ele responde: ''arte e ecologia tem uma forte relação - a arte poderia dar força à causa ecológica e a ecologia poderia dar mais sentido a arte''.
Então é isso. Agora preciso ir para a horta regar as verduras, mas antes explico a origem do nome da fazenda do Daniel: vem de um poema de Heinrich Heine que descreve a ilha da fonte da eterna juventude. Parece-me uma ótima idéia...

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