ALFABETO VISUAL - É!
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de outubro de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Arte
Decorativa. Artesanal. Popular. Erudita. Religiosa. Profana. Oriental. Corporal. Indígena. Bruta. Naf. Impressionista. Pop. Conceitual. Contemporânea. Moderna. Romântica. Clássica. Barroca. Anti-arte. Sem arte.
Arte
De calar; de falar, de cantar; de dançar. Do cinema; do teatro; da poesia; da prosa; da paz e da guerra; de dar nome ao nome da rosa; a minha e a sua. De galeria e museu. De rua.
Arte
De todo jeito; de bater no peito; de perder o jeito. Total, nenhuma.
Arte
Quem quer corre atrás. Quem disse que ela tem de ir onde o povo está? Que a encontrem, já que não se pode achar. Ela nunca está onde se pensa encontrá-la. Quem acha vive se perdendo. Perder-se exige aprendizado. Aprender a ensinar. Ensinar é uma arte.
Arte
Para quem? Para quê? Quem fatura com a arte que você vê, lê e crê que seja arte? Arte é a idéia de arte. Arte não é uma idéia. É emoção. É razão. E anda na contramão. Como assim? Quem vendeu a arte que você comprou para mim?
Arte
Inútil. Utilitária. Servindo uma causa. Operária. Panfletária. Política, poética. Ética, estética. De participação. Para brincar com a imaginação. De se jogar fora. De grudar na memória. De comer com a mão.
Arte
Nacionalista. Tropicalista. Tropicolista. Internacionalista. Ufanista. Para exportação. De pintar palmeira, papagaio e caju. De exaltar o samba e os contornos da mulata. De representar a mata, o rio e as cachoeiras do Brasil. Arte de pintar o mar. Arte de morrer. De viver. De matar.
Arte
Como artifício. Jogo. Invenção. Como manipulação de sentimento. Como discurso, linguagem, pensamento. Para sempre e um só momento: passageiro, efêmero e transitório. De ocupar território.
Arte
Ritualística. Sagrada. Da terra molhada. Do amor do fruto pela semente. Do milagre da multiplicação. De dividir o pão. De dar graças a deus. E ao trovão. Quando a vida é plena. Quando a colheita vale a pena.
Arte
De refazer amizades. De dar saudades. De sonhar com a liberdade. De imaginar a transformação da sociedade. De contar uma mentira, revelando uma verdade. Arte para lembrar de esquecer. E ser.


