ALFABETO VISUAL - Dos desejos e dos toques
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de fevereiro de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
O leitor/criador No livro 'Anseios Cripticos', de Paulo Leminski, em um
dos artigos originalmente escritos para jornal o autor se refere ao
papel do emissor e do receptor da informação, colocando que, na poesia, a
linguagem ''enlouquece''. Defende que poeta não é só quem escreve, mas quem
lê. Que cada um ''cria'' o seu próprio poema e a obra seria um catalisador
capaz de fundir autor e receptor em uma só figura.
Público participante O movimento neoconcretista, surgido no final dos
anos de 1950, também pregava a participação do público na obra de arte. As
capas/parangolés de Hélio Oiticica, por exemplo, só ''funcionam'' caso usadas
pelo ''participador da obra'', ou seja, vestidas pelas pessoas, que devem
dançar com elas. Os ''objetos relacionais'', de Lygia Clark, que eram
constituídos de saquinhos plásticos, pedrinhas, balões de ar, também
apontavam neste sentido, e tinham a pretensão de desenvolver a percepção de
cada um, ao tomar contato com diferentes texturas, cores, cheiros, pesos,
etc.
Virou até lugar comum, hoje em dia, que a arte deva ser tocada, manipulada,
cheirada ou, mesmo, chutada. Como no caso em que artistas propõem que o
público jogue bola na galeria de arte, ou coisas do tipo. E que a própria
visão, como ensina a física quântica, modifica aquilo que observamos. Enfim,
o espectador não é mais aquele ser passível e impassível diante da obra de
arte, mas assume uma postura de ''interação'' com ela. Ou seja, o público
torna-se criador a partir da obra.
Pode tocar? Mas, por mais paradoxal que seja, as obras de muitos desses
artistas tornaram-se objetos de fetiche. E quando vamos a uma exposição
desses mesmos trabalhos em museus, somos advertidos por uma placa ao lado da
obra, com a inscrição: não toque. E o que era para ser usado, gasto, tocado,
nunca, na história da arte, esteve tão bem conservado.
Antes ninguém tocava na arte porque não havia arte para ser tocada, apenas
contemplada. Cada um que tirasse suas próprias conclusões do que ali se
expunha e todos concordavam com uma única leitura de obra, fosse um poema,
fosse uma pintura ou escultura. Mas agora, em uma galeria de arte, nunca se
sabe ao certo se o artista criou seu trabalho para ser ou não tocado. Muitas
vezes falta a placa de advertência, mas o segurança está lá, para proteger o
patrimônio de qualquer ''intervenção''.
Provocando os desejos Em arte, é sempre a condição desejante que faz
dela algo a ser sentida, desejada. O artista não entrega um discurso pronto
e acabado para o público. Isso seria destruir a capacidade do outro de tirar
suas próprias conclusões da obra com que se defronta. Seria direcionar o
público para uma mensagem, como faz a publicidade. Como quer a política.
Seria,justamente, tirar a poesia de seu lugar privilegiado, que é o uso das
metáforas, dos símbolos, da imaginação. E tocar ou não tocar a obra pode ser
uma estratégia usada pelo artista para, justamente, provocar essa condição
desejante no público.
Artur Barrio, um artista luso/brasileiro, em um trabalho realizado na Semana
de Arte de Londrina, de 2001, amarrou um rolo de corda na parede e deixou a
ponta solta no chão, pronta para que alguém viesse e a puxasse. Mas quando
isso aconteceu, o próprio coibiu a ''participação'' alheia, dizendo que sua
arte não era interativa. Afirmava que quem faz a obra é o artista. E ponto
final. Quer dizer, oferecia o doce, mas não deixava que o pegassem. O que
não impediu de levarem as garrafas de vinho que faziam parte de sua
instalação...
Um caso pitoresco aconteceu com a obra ''Cruzeiro do Sul'', de Cildo Meireles:
um cubo de madeira de um centímetro, dividido entre duas madeiras, uma mole
e uma dura, com as quais os indígenas faziam fogo. Para expor esse trabalho
Cildo exige a distância máxima de outra obra qualquer ao seu redor. Exposta
em um museu, Cildo foi averiguar as condições em que se encontrava seu
trabalho e lá o vigia guardava o ambiente vazio, com um holofote iluminando
coisa alguma, sem se dar conta de nada. Alguém tinha levado a obra. Por
sorte o artista tinha outro exemplar daquela peça e lá o recolocou. O que
era quase zero, por um momento zero tornou-se. Mas aí acaba o discurso da
arte e se torna caso de polícia.
Transparência do desejo ''Dos objetos e desejo de transparência'' é a
exposição em cartaz na Casa de Cultura da UEL, até 04 de março, da artista
Elke Coelho. E desejar tocá-los, mas não poder fazê-lo, exige certa
disciplina e rigor, no caso de quem está interessado em compreender um
trabalho de arte, nessa nossa época pós-tudo, como já afirmava o poeta
Haroldo de Campos.
A arte pode ser beliscada, mordida, chupada, o que for, mas diversão e
entretenimento podem ser mais facilmente encontrados no play-center, do que
em uma galeria de arte. Lá, por mais convidativo ao toque que sejam os
materiais que Elke dispõe à nossa frente, eles não podem ser tocados, a não
ser no sentido ''quântico'' da palavra.
Na verdade, o que lá está colocado, mais do que o desejo de transparência, é
o próprio desejo querendo se tornar palpável a nos seduzir a percepção. E é
nesse ''entre'' que não é nem o toque na matéria e nem a contemplação passiva
dos objetos que cada um pode tirar suas próprias conclusões usando a
própria criatividade a partir de uma pergunta feita por algo que pode ser
chamado ARTE.


