ALFABETO VISUAL - Dizem que sou louco
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de maio de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
O título da coluna tirado de ''Balada do louco'', dos Mutantes ''maior banda lisérgica que já existiu'', segundo alguns críticos quer fazer mais do que uma revelação. Quer se tornar uma ''plágio-revelação'' sobre o próprio autor deste texto: dizem que sou louco, também. ''E falam por meu bem'', completaria o compositor Cazuza.
Pesquisando sobre o assunto, via internet, encontrei um texto de Luís Caversan com o mesmo título acima. Narra uma história que lhe aconteceu, em um semáforo, em São Paulo, quando uma moça aproveitou o sinal fechado, aproximou-se do seu carro e com uma tesoura na mão, sem nenhuma ameaça, olhou-se para o espelho retrovisor lateral e começou a cortar, com intercalações, o próprio cabelo e as roupas, ali, na rua.
Caversan faz duas considerações interessantes em seu texto, separando a loucura romântica, como algo ''criativo'', em situações inusitadas. E outra, cuja tendência é a de rotular alguém que esteja/seja fora dos padrões convencionais, como aberração, como forma de exclusão social. Neste caso, ambas não excluem a dor de viver marginalizado.
São formas de ver o louco em nossa sociedade. Um misto de atração pelo desconhecido. E medo. Fascínio e pavor. Não sei se é congênito, ou cultural, mas existem estes dois pólos contrários conectados à idéia do estranho, do outro. Do que está na fronteira entre algo que não conseguimos definir com regras lógicas e exatas.
Michel Foucault em seu livro ''História da Loucura'', pergunta se a loucura não reinaria ''sobre a ambição que faz sábios políticos, sobre a avareza que faz crescer riquezas, sobre a indiscreta curiosidade que anima os filósofos e os cientistas''. Poderia perguntar, também, porque ela é fonte inesgotável de inspiração para os artistas. E, nesse caso, teríamos dois tipos de resposta. A primeira é que a arte, depois dos movimentos Dadaísta e Surrealista do começo do século vinte - tem procurado questionar a realidade e a lógica de um mundo que parece não ter lógica, mas não assume sua própria loucura. E a segunda, que pode ser um desdobramento da primeira, é que os próprios artistas começaram a usar sua própria loucura como parte de trabalhos em arte, o que era impensável antes do surgimento da arte moderna. Tornar-se personagem da própria criação passou a ser estilo. Atores que assumem a personalidade de suas interpretações no cotidiano. Gente que passou a interpretar a si mesmos, como personalidades do mundo da cultura. Não só no teatro, no cinema, nas chamadas artes visuais, ou moda, que parecem o local da loucura *glamourizada*. Mas na política, na ciência e na filosofia, onde esperamos sempre a razoabilidade.
Mas já que ''de médico e louco todo mundo tem um pouco'', brindemos a essa rainha que ''a lucidez escondeu''. Ao falar de artista louco já lembramos logo em van Gogh e em Salvador Dali. O primeiro pela violência de sua verdade, que se revelava nas cores de sua palheta e nas marcas de seu pincel sobre o quadro. O segundo pelo fato de ter inventado a si mesmo como personagem saído de uma de suas telas. Sabia manipular a imaginação das pessoas e fazer marketing dos próprios bigodes. Entre esses dois exemplos, um abismo: enquanto um expunha sua paixão sincera, o outro usava o artifício da arte para inventar uma farsa. Mas nem sempre essa farsa é capaz de diminuir a dor real que o artista sente. Como escreveu o poeta Fernando Pessoa, ''o poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente''.
A loucura nos propõe ''um imenso vazio de entendimento numa imensidão de significados''. É por isso que muitos de nós ainda buscamos nos apoiar na desculpa das risadas ou da intolerância, quando não conseguimos compreender a ação alheia.
Dizem que sou louco. Quem diz isso não sabe que essa é minha desculpa para escrever um texto que é uma ''plágio-revelação'', já que arte e loucura se permitem a esse tipo de licenciosidade, onde a moral da história é afirmar a diferença, ainda que essa afirmação seja uma repetição. E até que não é tão mau assim, como ensina o poeta paranaense Paulo Leminski, que no livro Caprichos e Relaxos escreve assim: ''(...) todo bairro tem um louco/ que o bairro trata bem/ só falta um pouco/ para eu ser tratado também''.


