Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à idade da razão, não pode sentir-se sobre a Terra senão como andarilho - embora não um viajante em direção ao alvo último: pois este não há.
Mas bem ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo que propriamente se passa no mundo. Por isso não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada singular, tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade.
F. Nietzsche
Uma das questões mais caras à arte contemporânea - principalmente aquela onde a dimensão ética e estética caminham juntas enquanto percepção de que arte e vida são princípios de uma mesma razão de existência - diz respeito aos modos de produção de valor artístico como discurso crítico, onde a dimensão da autoridade e do personalismo do artista e do fetiche do objeto artístico como mercadoria cede espaço para novos procedimentos em que nem tudo ainda está nomeado e registrado como ''arte'' ou ''ação de arte''. É o caso, por exemplo, de posicionamentos e atitudes que poderiam ser considerados como ''obra de arte'', mas que simplesmente são ''lições de vida'', cheias de potências para nos inspirar a viver mais amplamente nossos destinos como seres transitórios neste planeta. Aqui, o material mesmo utilizado pelo ''artista'' é a própria experiência de vida.
Na China antiga, certos mestres, depois de realizar metas que haviam se disposto a cumprir, abandonavam tudo e começavam outra vida totalmente diferente daquela que já tinham vivido. Conta-se que alguns deles chegaram a ter pelo menos cinco vidas em uma só. Para isto acontecer tinham que largar tudo o que já tinham conquistado e recomeçar tudo do zero, novamente. Haja fôlego e desapego!
Em recente visita a Londrina, a monja Zen budista mestre Coen falou que para quem quisesse viver uma vida de monge, deveria largar tudo, inclusive a família, e que era preciso fazer um voto de pobreza para se tornar um seguidor desta doutrina religiosa/filosófica, que prega o aqui e o agora como regra de conduta e tem na respiração o caminho que leva as pessoas a sentir o espaço e o tempo como algo presente.
Viver uma vida que é única e indivisível e, ao mesmo tempo, sujeita e submersa às mudanças, é como criar uma rede de relações e entrelaçamentos na qual a única bússola que temos para nos orientar nesta geografia cambiante é a nossa certeza de que não estamos imunes às experiências, convivências e trocas mútuas e recíprocas. Dar vazão a uma trama em que se começa, por um lado, sem saber onde vai dar e depois ir juntando outras partes que, poderia se dizer esquizofrênicas ou franksteinianamente fragmentadas, mas que são também o percurso de uma história não linear e a-lógica (não no sentido de negação, mas de superação), na medida em que é indissociável desta espécie nômade da qual somos participantes e praticantes na maneira de agir. Ou seja, a vida como doação e dádiva. Experiência sem retorno nem contorno, simplesmente fluxo e ação.
Não que a conexão entre os fatos seja condição imperativa, mas a história de cada um está entrelaçada nessa trama de ontem e amanhãs que formam o hoje: somos fruto da nossa experiência em comum (perspectiva histórica, ambiente social de convivência, etc.), mais a experiência individual e indivisível de coisas que aprendemos por nossa própria conta (''o tombo que cada um leva é o que nos diferencia'', segundo Hilário Mertz). Talvez seja aí a intersecção entre o desejo de retomar, sempre, uma história sem fim e a distância que se impõe pelo próprio curso das vivências que não se apagam, mas que se distanciam, conforme crescemos, mudamos, nos transformamos.
Por um lado uma dor tremenda da separação e quase que uma certeza de não haver retorno novamente, como em um caso antigo de paixão. Por outro lado, a felicidade de saber que o amor é também desgarramento, deixar e deixar-se ir. Ou seja, o amor é também desapego, porque sempre queremos o terreno seguro e a posse daquilo que acreditamos amar, transformando uma dimensão que nasce para ser livre, em contrato de exclusividade. É esse lugar, esse território de acolhimento, sem reservas, sem que se possa caber outro corpo/espírito senão o meu, cuja certeza de sua existência não passa de uma noção, ou uma crença, é esse lugar que devo torná-lo passagem e não propriedade privada de um desejo.
No dia em que o ser humano conseguir amar o outro deixando-o ir, talvez um pouco dessa ''rede de desejos'' que é lançada ao ar captando sonhos e fantasias se complete e se complemente, porque será uma realidade onde ontem, hoje, agora, amanhã, sempre e nunca ressoarão durante um indivisível e inominável instante de vibração absoluta. Ou, como saudavam os antigos Mayas: ''eu sou o seu outro''. E assim, pelos buracos das malhas desta gigantesca e intrincada rede de tramas, podemos inventar situações de tráfego em todos os sentidos para a realização de uma experiência única e indivisível, possível de ser chamada de plenitude. Uma arte pura de vida.
[email protected]
As informações e opiniões publicadas neste espaço são de responsabilidade exclusiva do colunista.

mockup