‘‘Caminante, no hay camino, se hace camino al andar’’
(Provérbio popular)

  Idéias. Elas podem nos chegar enquanto estamos tomando banho, dormindo e,até mesmo, quando estamos distraídos. E nos fugir, quando mais esperamos que apareça. E, mesmo que apareça, é preciso executá-las, senão não adianta nada sua aparição. E, também, acreditar nelas, pois uma idéia em descrédito tende a não funcionar. E aí ocorre desperdício de talento.
  Uma idéia não vem do nada. Para a resolução de qualquer problema é preciso ter alguma intimidade com aquilo que se quer resolver. Abrir um aparelho eletrônico quebrado, sem saber mexer nas peças, é perda de tempo. Às vezes a solução é mandar outro solucionar o caso por nós, quando o problema é técnico, pelo menos.
  Em se tratando de arte, também é preciso colocar em prática as idéias. Por mais que a intuição, o inconsciente e aspectos subjetivos sejam os condutores do processo de criação, é preciso um mínimo de intimidade com os materiais com os quais se quer trabalhar. E, por menor que seja a idéia do que fazer, ter um caminho a seguir.
  Em pintura, é possível jogar uma lata de tinta sobre um pano e resolver a questão, mas o ‘‘artista’’ vai ter que responder pelo seu ato. E vai depender muito de sua obra passada e da linguagem que ele desenvolve, se isso poderá ser apreciado como arte, ou não. Jogar por jogar tinta no pano, pode ser um exercício de estudante, ou uma inconseqüência sem maiores resultados, ainda que ninguém precise ser considerado louco ou gênio, só por isso.
  Já que estamos falando de pintura, um dos caminhos a seguir é o de fazer vários esboços em papel, trabalhar a forma, até chegar a um resultado satisfatório e, daí, partir para o quadro. Tem uma regra, basicamente. Mas ela não necessariamente, ou, não obrigatoriamente é a única maneira de se começar a fazer algo em pintura, que é partir das tintas mais aguadas para as mais oleosas e da cor mais clara às mais escuras.
  Quanto a ter o que dizer, em um quadro, aí o problema é outro! Assim como o samba, arte não se aprende na escola. Podem-se oferecer ferramentas para o aluno desenvolver seu trabalho, passar-lhe uma boa bibliografia, ensinar-lhe técnicas. Mas um artista não depende só desses fatores para realizar sua obra.
  Muitas vezes ter o que dizer não está em procurar alguma novidade fora do alcance das mãos, ou dos olhos, ao contrário. Pode estar naquilo que corriqueiramente o mortal comum não vê, mas que o artista consegue perceber através de sua sensibilidade.
  ‘‘Faça pelas coisas o que elas mesmas fariam, se pudessem’’. Essa frase Zen ilumina, de maneira brilhante, muito do que é pode ser chamado de arte, porque o conhecimento sensível não passa, necessariamente, por modificar algo, mas por criar novos sentidos a algo que parecia comum demais para ser visto ali algo especial.
  Michelangelo via na pedra de mármore bruta a sua escultura. Dizia que a forma já estava ali, e o que precisava ser feito era retirar o excesso da pedra. Para ele, o verdadeiro artista tirava a forma inteira do bloco, sem precisar colar pedaços de pedras a mais no mármore original. Mas, para Bernini – um grande escultor do período Barroco – isso não fazia a menor diferença. O mesmo se deu entre Beethoven e Rossini, músicos e compositores do século retrasado. Um não admitia encomendas. O outro só trabalhava à base de serviços encomendados. O que era inconcebível para um, para o outro se tornava inspiração, até.
  Em todo caso, não dá para querer resolver nossos problemas só no espaço mental: ah, e se eu fizer assim, ou assado. É preciso começar a fazer o que se tem a fazer e ver no que vai dar. Até porque o roteiro pode mudar no meio do caminho. Até porque para se ter uma idéia é preciso ter uma idéia do que precisa ser feito.

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