ALFABETO VISUAL - Cultura da tragédia
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de novembro de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Assim que o compositor alemão Karlheinz Stockhausen (1928) disse, após o ataque às torres gêmeas, no 11 de setembro, que aquilo foi um espetáculo de causar inveja em qualquer artista, suas apresentações logo foram canceladas como retaliação à sua frase, como se a verdade e a bondade devessem ser as únicas mercadorias cultivadas pelos artistas na ''sociedade do espetáculo''.
Desde Baudelaire, pelo menos, o feio, o sujo, o mau, o ruim, o péssimo, são tão partes da ''beleza'' quanto o pôr-do-sol mais romântico visto por um casal apaixonado. Acabamos de sair da fase ''Paulo Coelho'' e de livros de ''auto-ajuda'' que entupiam as prateleiras das livrarias, sabendo que o ''politicamente correto'' era e é tão dogmático e ideológico quanto a ''democracia'' que os Estados Unidos querem impor ao mundo. Espetáculo é mercadoria, mercadoria é comércio e comércio é capital. Nunca se tomou e se gastou tanto em remédios antidepressivos como nos últimos anos. Para o enriquecimento dos laboratórios multinacionais, é claro!
Em um mundo terrorista, onde o grande espetáculo é a ameaça de morte aos seus habitantes, que papel teria a arte, além de servir e de se servir desse horroroso espetáculo que se anuncia todo dia no rádio, na internet, no jornal, na televisão? Em entrevista recente à Rede Al Jaazera, um representante do alto escalão da Al Qaeda afirmou que há pelo menos sete ogivas nucleares plantadas no sub solo norte-americano prontas para explodirem. Cidades inteiras voariam pelos ares e milhões de pessoas morreriam, desestabilizando finalmente o império americano, considerado o Lúcifer, por Bin Laden e seus companheiros. Enfim, chegamos ao mundo da virtualidade de ponta cabeça, onde nem os clones, nem os transgênicos são tão ameaçadores quanto as ameaças em si, que levam pânico a todos.
A pergunta é inevitável: faz sentido ser artista? Mais: faz sentido ser médico, engenheiro, lixeiro, professor, lavrador, ou outra coisa, ganhar dinheiro, constituir família, esperança? O melhor é viver e não se deixar levar por tanto pessimismo como um dia o planeta se deixou levar pelo consolo que o ''mercado livre'' iria regular a economia e seríamos todos consumidores globalizados. Não deu. Não dava. E ainda gerou depressão, recessão, desemprego, exclusão e devastação do meio-ambiente. O espetáculo anunciado não passava de farsa, também.
Se tudo mudou (e tudo muda), também o artista deve constantemente rever sua função e seu significado nesta intrincada trama em que a humanidade está envolvida. E é, talvez por aí, que aquele que está envolvido tanto com a arte, como com qualquer outra disciplina do conhecimento humano deve começar por realizar sua crítica e colocar suas propostas. Não há mais fronteiras tão definidas quanto as que estavam delimitadas há até pouco tempo atrás. O especialista perde terreno para aquele cuja percepção holística e englobadora é capaz de perceber e compreender melhor o processo em desenvolvimento, mesmo que atue em diversas áreas do conhecimento. Aliás, ele não deixa de fazer aquilo pelo qual sua formação o levou a ser, pois não há como apagar o passado, simplesmente. Como diz o mestre Koellreutter: ôa história inclui".
A radicalidade sempre foi a marca dos ousados e corajosos, e no caso da arte, pode haver - pelo menos desde as tragédias gregas - uma certa aproximação de um desejo terrorista, como falou o compositor alemão. E, até mesmo quando um artista desiste da arte, isto pode ser um sintoma de algo tão artístico, quanto uma ameaça de hecatombe, que nos levaria todos ao ar. E isso soube sintetizar muito bem o poeta romântico do século 19, Rimbaud, dizendo que ''perdeu sua vida por amor''.
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