ALFABETO VISUAL - Conversa entre artistas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de novembro de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Rubens Pillegi - Para mim era mais fácil quando a esquerda dizia que não ia pagar a dívida externa, que não negociaria a ALCA, que iria fazer a reforma agrária, enfim, eu até entendia o chavão de ''que o mundo só seria feliz no dia em que o último padre seria enforcado nas tripas do último burguês''.
E também para um cara de direita. Para ele, era mais fácil pensar que para acabar com a pobreza era só matar os pobres. Que na favela só tinha bandido e que a pena de morte era a solução para acabar com o crime.
Aí eu entendia tudo e sabia quem era o inimigo. Agora o discurso é sobre o ''déficit primário'', ''taxas cambiais'', ''cotação das bolsas'', ''desejos do mercado: o mercado aquece, o mercado está em alta, etc.'', ''superavit'' e por aí vai no economês. E eu não tenho vontade de aprender nada sobre isso que me parece tão longe da vida enquanto tudo o que eu pretendo enquanto artista tem a ver com uma arte NA vida.
Diga você, que fez os ''Três Macacos'' (nada vejo, nada falo, nada ouço): qual é deve ser a nossa atitude agora? Protestar é mais fácil que ''administrar''? Ser oposição é mais fácil do que ser situação? Os guerrilheiros de ontem viraram ''iúpes'' de hoje porque entenderam que sua utopia era o que era: utopia?
Como iremos negociar com os interesses da ALCA e dos Sem-Terras ao mesmo tempo? De que lado ficarão os artistas? Do lado do Delfim Netto que tem grana para comprar obras de arte, ou do lado do Stédile, um grosseirão que está se lixando para arte, mas que luta por uma causa justa?
Pergunto para você, Regina, que tem uma trajetória marcada por um posicionamento crítico em seu trabalho e atenta às questões relevantes da sociedade.
Regina Vater - Quanto ao que mais você comenta a propósito da política/politicagem corriqueira em nosso país, eu não sei se sou a melhor pessoa para lhe responder, dado a minha ausência por tantos anos (mais de vinte). Mas quando de passagem por aí apareço, muitas coisas parecem mudadas na superfície, mas em estrutura tudo me parece o mesmo. Na renda, a oligarquia de sempre. Na cultura os clubinhos de sempre (polarizando atenção e monopolizando ferozmente as parcas graças). E muitos como você mesmo testemunha, que se pronunciaram rebeldemente nos sessenta, hoje confortavelmente assistem tudo dos camarotes oficiais, deixando rolar um discurso cansado de fórmulas e truques espertos ou não.
Me da pena ver a obra de artistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark ser distorcida e usada em nome de interesses contra os quais estes mesmos artistas lutaram. Eu que os conheci bem, imagino que devam estar se revolvendo nas tumbas. Uma coisa eu acho. Creio que no Brasil, ou melhor, na América Latina, ou melhor, no chamado ''terceiro mundo'', ainda existe espaço para metáforas políticas no discurso artístico. Como por aqui metáfora é apenas uma palavra enigmática que existe não dicionário, os que lidam com elas são normalmente marginalizados do discurso circulante. Embora aqui e ali a gente sempre encontra umas brechas...
Como a obra, para mim é sempre decantação de tudo aquilo que somos, do que vivemos e do que aprendemos em nossos encontros no mundo, o que me interessa é que a minha vida seja íntegra para que através dela eu venha trazer algum benefício para os outros. Portanto a minha obra é o resultado direto do meu ser/viver.
Para mim existem preocupações básicas tais como: conscientização, preservação e melhor distribuição do incrível banquete que este planeta com todos os seus recursos oferece a todos em que nele viajamos.
Não sei mais o que lhe dizer de tão distância! Talvez lhe passar adiante uma frase que John Cage um dia me disse quando lhe perguntei nos (anos) oitenta uma pergunta similar a sua: ''O que a gente deve fazer, é continuar a ser e fazer como se tudo já estivesse mudado...''. Enfim continuar a levar a vida com a atitude positiva que a vida sempre merece.
Quanto ao protesto sempre acho que ele é parte inerente da obra queira a gente queira ou não. A falta de protesto é também uma ação (de conivência muitas vezes...) E também penso que ele não precisa ser abertamente panfletariamente político. Que a obra seja aberta, instigante e que seu discurso corra solto fomentando o melhor nos nossos subterrâneos.
Vejo a minha função de artista como uma instigadora de reflexões através dos signos da linguagem. (A beleza no trabalho é apenas um artifício de sedução... A estética convidando à ética). Penso sempre que o importante é deixar espaço suficiente para que a percepção do leitor se desenvolva, e que ele (leitor) possa inclusive acrescentar ao discurso iniciado na obra. Pareço ingênua, não? Mas é isto o que aprendi com os tibetanos, de quem respeito muito a maneira de filosofar. ''Viajante no hay camino, el camino se hace al caminar...'' Antonio Machado (grande poeta!!!! Adoro os poetas , com eles nasceu a filosofia, de acordo com Hiddegard...).
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