No livro ''Física e Filosofia'', seu autor, o alemão W. Eisenberg, pai da física quântica, dizia que para novos conceitos, nova linguagem. Ou seja: não adianta detectar todos os problemas do mundo, desejar o novo e tentar criá-lo com ferramentas antigas; não se pode querer pensar a física quântica com as definições da física newtoniana, que tem como referência a gravidade da terra; que não é possível uma crítica revolucionária sem uma prática revolucionária; revolução da forma sem revolução do conteúdo, como sempre disseram os poetas concretos; revolução social sem revolução comportamental, como colocam os pensadores mais lúcidos, em política. Enfim, não há revolução comportamental sem mudança do eu. Sem conhecimento pleno do eu. Sem primeiro a transformação do eu. Sem colocar em risco velhos paradigmas.
Todo mundo está cansado de saber os problemas da sociedade moderna: que o advento da indústria gerou a necessidade de se criar o consumo, de se investir em uma sociedade de massas, manipulada pelos meios de comunicação, nascendo daí um consumidor passivo, subordinado às exigências do mercado. E que o interesse único e exclusivo dessa sociedade é o lucro.
Acontece que isso faz gerar, a cada dia, mais e mais gasto de energia e matéria, em um ritmo cada vez mais veloz, esgotando as reservas naturais do planeta, artificializando a vida, tornando tudo descartável, frívolo, como se vivêssemos uma realidade virtual, um jogo na frente do computador. Onde as mortes se tornam necessárias, desde que tudo fique limpo e asséptico sobre o tapete. Como nas guerras que vemos pela tevê, um procedimento cirúrgico.
E todo mundo tem história para contar: que a televisão aliena as pessoas; que o carro prejudica o passeio a pé; que a família corre riscos, que a tradição e a propriedade estão ameaçadas.
Assim, vemos surgir, cada dia mais, especialistas em auto-ajuda, ou, o que é mais irônico: pessimistas oficiais de plantão faturando alto sobre a desgraça humana. Enganando os outros ao falarem da guerra como horror, mas, no fundo, promovendo-a. Lobos em peles de cordeiros. Urubus sobre a carniça que, ao venderem idéias contra o trabalho alienado, utilizam os mesmos expedientes ''alienantes'' que condenam. Para esses ''filósofos de olhar oblíquo'', a crítica lhes é suficiente como prática revolucionária, porque podem convencer a todos sobre os efeitos nefastos da ''crise''. Porque se aproveitam dela. Não apontam saídas, só mostram as injustiças do irracionalismo racionalista em que vivemos. Acabam justificando o que analisam como problema: a submissão às leis do mercado. Por mais que se critique um empreendimento que polui um rio, por exemplo, todos concordam que é preciso gerar recursos, desenvolver tecnologias, investir em empregos. Manter as coisas como estão.
O filósofo alemão F. Nietzsche dizia que o homem tem três fases na vida: o camelo, o leão e o menino. É hora do menino brincar. Mas em nossa sociedade, brincar tornou-se proibido, assim como o trabalho, o carregar o fardo, transformou-se em algo sagrado. E a maioria prefere ser regida pelas leis do mercado e do sistema neoliberal e imperialista do qual fazemos parte, do que aceitar as possibilidades de mudanças profundas. Mas inadiáveis.
Família, pátria, propriedade, religião: qual o lugar dessas instituições tão fortes para o Homem Livre do Novo Tempo? O Homem Livre do Novo Tempo? A mudança parte de cada um primeiro. E a criatividade, a arte, é o motor dessa mudança. ''Poesia é risco''. Experimentar esse risco é o modo de sentir seu efeito direto correndo nas artérias do corpo social. Esse um primeiro passo para uma longa caminhada. E nesse percurso o que conta é a alegria de estar vivo. Vamos dançar e cantar, pois.

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