Contaminações: Embora o muro das desigualdades econômicas continue separando o capital do trabalho e a propriedade do uso, os valores impostos pela globalização permitiram, por um lado, o acesso a todo tipo de informação, trocas e interações entre povos e nações de culturas diversas, distantes uns dos outros até bem pouco tempo atrás.
A noção referente a centro e periferia vem sendo cada vez mais abolida, mesmo porque o capital, hoje, não tem mais pátria. Do mesmo modo, cai a fronteira entre a arte de vanguarda e a arte tradicional, étnica, popular, regional.
Há tribos indígenas usando o computador em suas aldeias, incorporando a tecnologia eletrônica para preservar suas tradições. Somos todos parte de pequenos grupos, comunidades, aldeias, contaminados e contaminando outras visões em contextos diferentes, com nossas peculiaridades específicas.

Glocal:O trabalho desenvolvido no seio de determinada realidade deve ser definido pelo diálogo profundo com o meio histórico, social, geográfico, econômico e político onde é gerado. Assim, a pertinência das questões levantadas poderá ser colocada em discussão e em comparação com outros modos de pensamento e expressão do mundo todo, sem gerar crises de compatibilidade, ou tendo de abrir mão da identidade própria. É a chamada ''glocalização'' da cultura: uma ação local agindo em relação a um contexto global, em uma grande rede de conexões.

O papel do artista: O papel do artista, hoje, deve ser o de mergulhar em sua realidade, fazendo uma crítica capaz de penetrar profundamente as questões emergenciais. Quer dizer, refletindo sobre as condições que estão em cena e sintetizando de maneira clara e simples sua maneira de pensar, de acordo com um ponto de vista que seja, ao mesmo tempo, ético e estético, poético e político.
O mercado tende a mitificar a figura do artista e nessa ilusão, torná-lo apenas uma peça do sistema artístico, em que ele se torna o elo de um circuito delimitado, onde os outros pensam, lucram e ele, como um iluminado, produz. É preciso estar atento e questionar o tempo inteiro quem são os agentes de arte e qual são os interesses que estão em movimento, para que o produto artístico não se aliene das causas que moveram o seu fazer.

Uma abordagem crítica: Ao contrário do comodismo e da vaidade que infectam as exigências dos que se dão por felizes pela penetração que suas obras conseguem no mercado local, o rigor e a determinação para se construir uma obra consistente está além das expectativas de venda e sucesso que o trabalho de cada um pode proporcionar. Para que a arte e a cultura de um povo possam criar raízes e se manifestar além do próprio lugar em que é gerada, é preciso defender de todas as formas possíveis o direito que os filhos dessa terra devem ter sobre ela. Uma arte que diz ser da terra, que aceita a exclusão e a manutenção da miséria como forma de estar em galerias e museus dominados por interesses de negócios, nunca, em verdade, será arte, mas um arremedo do que se pensa que arte é. Uma mera cópia de técnicas e de formas que são impostas de cima para baixo, reafirmando a subserviência a valores externos.

Conhece tua aldeia: A arte nasce das idéias que somos capazes de colocar em prática. E essas idéias são geradas pela necessidade da resolução de equações que são vitais à sobrevivência do grupo, da comunidade, das pessoas do lugar onde vivemos.
Prêmios, coquetéis de abertura de exposição e convites sociais não servem de consolo à mente inquieta. A consciência aberta de quem está atento e percebendo o movimento do mundo deve ser o compromisso com o próprio trabalho como meta e destino. Não quer ser o que não é, pois conhece seus limites territoriais. E uma vez que seja tomado um caminho, sabe que a ação local irá refletir nas causas globais, também.
O resto é fruto da competência, da sensibilidade e da honestidade, para não se desviar da realidade. Assim como o humilde lavrador sabe da chuva e do sol no momento de plantar e colher, o verdadeiro artista sabe o desejo de sua terra. Afinal, como dizia Leonardo da Vinci: ''Conhece tua aldeia e conhecerás o mundo todo''.

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