Lendo, voltando, re-voltando a Hélio Oiticica, ao Tropicalismo, à Lygia Clark, anos 60, Paz & Amor, àquele período todo, senti-me pleno de desejos de experimentar (continuar experimentando) as ''estruturas abertas'', os ''espaços vivenciais'', onde noções como dentro e fora se tornam apenas ''noções'' mesmo e, portanto, passíveis de abolições. Claro, falo de arte, mas não (nunca) como fenômeno óptico, visual simplesmente, mas como parte de um todo orgânico: corporal e significativo. Como postulava o próprio Oiticica.
Então, essa arte, nesse momento, é mais importante que a AAArte, aquela coisa cheirando a mofo, tão distante como as histórias que nos tentam enfiar à força, na cabeça, na escola. Distante daquilo que nos interessa para a vida, enfim. Ou seja, se alguma arte interessa, que seja de incorporação. Sem sujeito nem objeto, mas relações entre partes distintas. Relações, sim. Em circuito, em redes, em transmissões via fax, telex, telepatia. Usando para isso tanto a virtualidade da internet, quanto o texto escrito no papel, o desenho feito no canto da página, o beijo na boca (de verdade), as mil tentações que o corpo experimenta ao se libertar do modelo sufocante de uma relação fechada, convencional, acomodada.
O que se quer, aqui, é a dissolução de fórmulas e formas sem se deixar preso a rótulos. Ficar desobrigado, inclusive, da preocupação de se viver abertamente o tempo inteiro, como se isso não incluísse a reclusão, o retiro e a concentração.
Depois de todo um caminho aberto por aqueles predecessores - via Oswald de Andrade, Dadaísmo, etc. - voltar a eles não é voltar atrás. Voltar atrás é negá-los. E negar toda uma ação e reflexão profunda do que somos nós, hoje.
Mesmo com a negação das idéias ligadas à sensorialidade - como foi pregado nos anos 80 - usadas como apelo comercial, aquilo tudo continuou vivo. Sinto-o.
Incorporar a idéia de um ''corpo/máquina obsoleta'' como foi proposto por aqueles que viram no desenvolvimento da tecnologia uma ferramenta capaz de mudar a própria definição do que é o Humano, também é parte do que hoje somos. Do que pensamos. De como amamos, inclusive. Um mundo sem nenhuma dúvida, incerteza, imprecisão não seria o nosso. Por isso, a volta às idéias de dissolução, precariedade, perecibilidade. Por isso a aceitação do que é inconstante, volúvel. Como uma paixão capaz de fundar a alegria de viver. E de aceitar esse jeito de ser, como a luz do sol que encontra um anteparo e lambe sua superfície com calor. Sem se deter a esse sentimento, porque lhe é natural. Seguindo seu curso, seu trajeto, seu movimento. Deter-se nessa inconstância é o que tenho a lhe propor, amor, por hora.
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