O mestre, maestro e compositor Hans Joachim Koellreuter contava uma história sobre percepção musical muito interessante: uma vez, quando ele levou a música atonal para ser executada por uma orquestra que estava regendo, um dos músicos, depois que acabou o ensaio, muito triste, lhe disse que aquela música tirava toda a certeza que ele tinha cultivado, até então, sobre música, arte e, por extensão, sobre a própria natureza do mundo e das coisas desta vida. Que ele nunca mais iria ouvir as coisas do jeito que ele as ouvia antes. E o medo dele era de que aquele mundinho ao qual ele estava tão acostumado se perdesse por completo e ele nunca mais tivesse um outro, para substituí-lo.
Captamos forças constantemente que nos fazem criar e recriar territórios para abrigar nossos desejos e expressões, em um incessante girar da Roda da Fortuna aquela carta do baralho de Tarot na qual todas as coisas são partes de uma mesma unidade cíclica e espiral. Nascer, viver e morrer para renascer, reviver, remorrer, como nos lembra a poesia de Augusto de Campos:''... renasce/remorre...''.
A diferença entre o mundo antigo e clássico e o mundo moderno e contemporâneo é que as mudanças eram extremamente bruscas quando se ocorriam e, agora, a mudança tornou-se constante e, praticamente, mudar pode não significar mais nada, além de uma repetição de mudanças. Mas, para a arte, de forma geral, e para a música, particularmente, o atonalismo representa um pássaro que não volta mais ao seu ninho. Enquanto na música melódica, este mesmo passarinho pode realizar vôos mirabolantes, mas sempre retorna ao ponto de onde saiu. Como um quadro abstrato.
O Festival de Música de Londrina, em uma de suas programações, apresentou um concerto de música erudita contemporânea no Teatro Ouro Verde, mostrando peças de Stravinsky, Ravel e Schoenberg considerado o pai da música dodecafônica com sua peça mais conhecida, que é o ''Pierrot Lunaire''. Creio que muita gente que foi assistir à exibição já conhecesse as relações entre música e pintura daquela época pré-primeira guerra mundial, mas, talvez, nunca tivesse escutado aquele tipo de música, que, certamente, é de causar estranhamento a ouvidos poucos acostumados com repertórios modernos e contemporâneos.
Estranhamento, aliás, é uma palavra que passou a fazer parte da arte, seja como forma de choque, seja como forma de se criar fora das normas e convenções anteriormente consagradas.
Além disso, os sons, as palavras, aquilo que vemos e sentimos não são tão inofensivos quanto podem parecer as propagandas comerciais na televisão. As palavras e os sons, os gestos e as atitudes, tudo possui vibrações, são registros de ondas e há camadas sub-reptícias que estão além do entendimento imediato, que não fazem parte da lógica racional, da informação e da comunicação.
Ouvir uma música atonal, por exemplo: o som vibra em ondas, toca lugares de nosso corpo que não sabemos exatamente qual será nossa reação. Provoca alterações em regiões do cérebro que não temos controle. Ficamos imersos em um mundo de significações que não dominamos, exatamente. Muitas vezes não sabemos, ao menos, nem como reagir a eles. Por baixo da comunicação mais imediata corre um mar de arquétipos e símbolos que mexem diretamente em nosso inconsciente.
Em arte, podemos não entender racionalmente o que está sendo dito, seja porque é dito em outro idioma ou porque o repertório do que está sendo dito/mostrado pertence a outra cultura, ou é de difícil acesso, ou as palavras são inventadas e não existem e queremos entendê-las, ou a arte é abstrata, etc. Mas sabemos e sentimos quando algo é repleto de conteúdo e tem densidade e força capaz de mobilizar e acionar devires dentro de nós.
Porque aquilo, no mínimo, nos incomoda, nos faz pensar, nos faz sentir. Enfim, de alguma forma nos atinge. E, mesmo correndo riscos, isso nos tocará em algum ponto que mudará completamente nossa maneira de se relacionar com a vida.

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