ALFABETO VISUAL - Bricolage, Bispo e Duchamp
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de março de 2005
Rubens Pileggi Sá<br> Especual para Folha2 
O trabalho cênico 'Bricolage', em cartaz na Casa de Cultura até o dia 3 de abril, suscita um debate interessante no que diz respeito tanto ao uso das mídias artísticas para se compor uma obra de arte, quanto ao modo de se apropriar de um tema tão delicado e transformá-lo em trabalho pessoal sem comprometer a veracidade dos fatos.
No caso, utilizando-se de performance, psicoterapia, dança, linguagem teatral e plástica, fazendo com que vários meios possam se interpenetrar para conseguir um resultado estético sensível e potente, ao mesmo tempo. E, por outro lado, fazendo uso da história e das obras de Arthur Bispo do Rosario (1909-1989), o interno do manicômio do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, que, durante 50 anos, produziu seu trabalho fechado dentro das celas reservadas aos doentes mentais.
A missão que Bispo se impôs foi a de catalogar todos objetos e nomes de pessoas e coisas que conhecesse para levá-los a Deus, no dia de sua ''passagem''. Sua obra é incrível. Chegava a retirar os fios dos lençóis de sua cama para bordar trabalhos como o famoso ''Manto'', com o qual gostaria de ser enterrado (pedido não atendido).
O termo bricolage, da encenação londrinense, remete ao modo como Bispo se apropriava dos objetos: juntando elementos distintos para criar outros, inusitados. E é assim que o espetáculo se apresenta: juntando luzes, sombras, sons, música, movimento corporal, objetos, cenário, representação e ação, como elementos de um mesmo processo de apropriação, fundindo diferentes linguagens, em uma peça onde tudo concorre para pertencer a uma mesma unidade.
Há, ao mesmo tempo, uma distância que se requer do ''objeto'' pesquisado - quando se quer mais do que uma pesquisa, ou documentário - e imersão em um universo tão rico e delicado quanto a questão da saúde mental, ou sobre o estatuto que opõe razão e loucura em nossa sociedade.
Dois momentos da encenação podem servir de exemplos que traduzem esse jogo de aproximação/distanciamento: na passagem que faz a roldana feita com roda de bicicleta se tornar um carrossel de canecas metálicas. E no momento em que os dois atores da atravessam o cenário com a cama como se fosse uma embarcação. O jogo de luzes e sombras torna a cena um épico. Um ritual de passagem, realmente.
Sair desse terreno documentarista, historicizante, cientificista, apropriando-se da criação alheia e transformando-a em trabalho autoral, sem esbarrar em análises psicológicas, visão médica ou dramalhão parece ser o desafio maior de quem ousa encara esse tipo de proposta, principalmente quando o personagem ''retratado'' possui um histórico tão forte como o de Bispo do Rosário.
Não é à toa que muitos ficam pasmos com a enorme semelhança do resultado de seu trabalho, feito na clausura, comparado aos trabalhos realizados na arte contemporânea, particularmente em Marcel Duchamp, que também tem, exatamente, uma roda de bicicleta sobre um banquinho. Ou a invenção de um personagem, chamado Rrose Selavy, que, no caso de Bispo, era de carne e osso e chamava-se Rosangala - a estagiária de psicologia Rosangêla que cuidou de Bispo por um tempo, e por quem Bispo se apaixonou.
Mas, bem, essa já é uma outra conversa. E Bricolage é um espetáculo que se abre para o movimento de uma roldana, onde uma história de marinheiro será contada para quem adivinhar a cor (azul) da aura de Bispo do Rosário. Sua exigência para os que queriam conhecer seu universo de bricolages.


