ALFABETO VISUAL - Arte grupal
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de outubro de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Muito se tem falado sobre a união de artistas em grupos para a realização de trabalhos conjuntos como forma de criação de uma marca distinta de linguagem. Cada dia mais, novos grupos se formam de norte a sul do país, tanto para mostrar trabalhos individuais de seus membros, quanto para realizar trabalhos comuns.
O velho lema ``a união faz a força`` parece ser o caminho encontrado por muitos que desejam espaços para debates, interlocuções e lugares para expor, sem, por isso, estarem atrelados a instituições, associações e núcleos institucionais oficiais, uma vez que estas organizações estão impregnadas de pessoas interessadas em cargos burocráticos e não na defesa dos interesses para o qual foram contratadas, afastando os artistas que, em geral, preferem a independência e a liberdade. Além disto, há uma disputa de poder e vaidade em certos órgãos oficiais que a melhor atitude é se manter longe deles.
Já os grupos independentes se apóiam mais no princípio de se unir de forma não hierárquica, onde seus membros estão ligados mais por afinidades afetivas do que ``pelos serviços prestados à arte e à cultura``, quer dizer, pelo peso de seus currículos.
Muitos desses grupos, dessas reuniões de amigos artistas ou de artistas que estudam ou estudaram juntos, ou que possuem uma linguagem comum entre eles se juntam para realizar um ou outro trabalho específico e depois se dissolvem. Muitos estão ligados a vários grupos sem que isso gere qualquer tipo de conflito, até porque eles não são fundados com nenhum objetivo comercial, a princípio.
Com a proliferação de ONGS, é possível que alguns grupos já estejam até atuando de maneira que seus sócios tenham alguma renda a partir daí para sobreviver. Outros, através de suas atuações, são contemplados com patrocínio de empresas públicas e privadas. O fato é que cada grupo tem procurado seus próprios meios de atuarem no circuito artístico do país, que, aliás, é muito fechado e tacanho. Mas a dificuldade da manutenção de um grupo, nesses termos, não é só financeira e passa pela vontade e desejo de cada membro, alimentando tanto a união, como a discórdia.
É interessante notar, por outro lado, que o artista, principalmente o artista visual, o artista plástico, sempre foi visto como um ser solitário, reservado em seu espaço de trabalho, criando guiado pela inspiração de musas, sem se importar com as políticas culturais adotadas para a sua área, como se nada afetasse sua produção. Bem diferente, por exemplo, do pessoal de teatro e cinema, que só podem ver seu trabalho realizado tendo em vista a montagem de uma equipe.
Para quem tem um Cézanne como ideal de artista fechado no interior da França, no século 19 talvez tenha dificuldade de compreender esses novos movimentos em conjunto, mas se o conceito da arte tem mudado ao longo do tempo, também o modo de agir dos artistas tem acompanhado essa evolução. O certo é que valores individuais não irão desaparecer são os que dão força aos grupos mas a proliferação de grupos não deixa de ser interessante de ser apontada como forma de atuação e abertura de novas possibilidades de se fazer arte.
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Rubens Pillegi Sá é artista plástico e colaborador da Folha


