Antepasto
Não, você não se enganou, leitor. Pode ficar tranquilo que a coluna gastronomia continua saindo às quintas. O título acima se refere, obviamente, à gastronomia, ou, a processos alimentares, mas que, de alguma forma, estão no contexto das artes visuais.
É que, entre metáforas para a palavra alimento e a comida na panela, ou, entre a representação do alimento e o alimento em si, muita coisa se passa entre o estômago e o cérebro, entre o físico e o espiritual. ''Comida é sagrada, menino!'', dizia mamãe.

1º Prato

Falar de comida e arte só pode dar matéria farta e saborosa. Além de bonita.
Como a comida japonesa, que leva em consideração a beleza do arranjo do alimento no prato. O colorido, além de dar equilíbrio às substâncias nutritivas, torna o sabor mais agradável, segundo os conhecedores dos mistérios da cozinha nipônica.
Aliás, as percepções e memórias são todas aguçadas quando o assunto é comida. Principalmente o olfato e o paladar. O cheiro tem o poder mágico de evocar lembranças, como a comida da avó, feita no fogão à lenha. E o paladar, bem, isso tem a ver com gosto, que deriva da palavra sabor, que vem de ''sapore'', cuja raiz, latina, é ''sapere'', de saber, de sabedoria.
Portanto, quando alguém diz que gosto não se discute, ou essa pessoa é sábia e sabe que a palavra gosto e a palavra sabedoria vêm da mesma fonte, ou então ela não sabe o gosto das coisas, e assim é melhor nem discutir com alguém sem gosto.

2º Prato

Desde a pré-história existe a ligação entre comida e arte. Há desenhos em cavernas representando bisões sendo atacados pelas lanças dos caçadores primitivos. Dá até para imaginar o clã se empanturrando de carne, depois, em volta da fogueira. Isso há 15 mil anos atrás. Quanta diferença dos dias de hoje, não?
Mas quem gostava de uma carne, mesmo, eram os Tupinambás. Humana, com certeza. E de guerreiros fortes e corajosos, porque covardes eles não comiam. Mas eles não faziam isso por fome. Mas, ritualisticamente. E é aí que dá para pensar em conceito artístico, uma vez que a relação com o alimento era simbólica, ou seja, metafórica.
Muito tempo depois do extermínio desses ''selvagens'' tupiniquins, foi o poeta e escritor Oswald de Andrade quem cunhou o termo ''antropofagia'' no modernismo brasileiro. Cuja idéia básica é a de se apropriar do que interessa da cultura alheia e adápta-la aos nossos interesses e necessidades.

Frios e saladas
Não poderia de deixar de citar os quadros que ainda enchem nossos olhos e alimentam nossos espíritos de tão vivos e saborosos que são enquanto arte.
Sua história de objeto decorativo pode ser definida, em nossa era moderna, a partir da reforma protestante, atingindo pintores e escultores que tiveram que encontrar temas que agradassem à burguesia, como a pintura de paisagem, os retratos e, claro, as naturezas-mortas. Pintar arranjos de frutas e alimentos se tornou ''um prato cheio'' para a inspiração artística.

Sobremesa
Hoje em dia, o próprio conceito de artes visuais se transformou. E, se antes, esse conceito estava ligado apenas aos sentidos da visão, agora todos os sentidos podem fazer parte dos planos da arte, se essa for a proposta do artista. O que manda hoje é a idéia que está por trás da aparência da obra.
''Arte come cosa mentale''. Então, o próprio termo ''arte visual'', ou ''artes plásticas'', usado anteriormente para designar as pessoas que pintam ou desenham ou fazem esculturas, torna-se restrito, e fazer uma comida pode ser um trabalho de arte. Mas isso já é prato para uma outra matéria e eu preciso cuidar do doce na panela que deixei cozinhando no fogo...

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