ALFABETO VISUAL - Antroteatrofagia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de março de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Era um dia qualquer, 10h40 da noite mais ou menos, e lá estava ele, estático feito uma estátua. Parado, sem se mover. De pé, como se fosse dar um passo. O olhar distante. Bem ao lado do bebedouro do xerox, no departamento de línguas, na Universidade Estadual de Londrina.
Algumas estudantes, rindo, diziam que já fazia uma meia hora que ele estava ali, naquela posição. No meio delas, uma não parava de dizer que era o Carlão, estudante de letras, que escreve poemas, nosso personagem. Outra dizia que devia ser um trabalho de escola que algum professor mandou fazer. E ainda outra: ''é coisa de psicologia''.
Um grupo de rapazes, passos ligeiros para não perder o ônibus de volta para suas cidades, de passagem, não entendia o porquê da situação. Um chamou a figura de ''coitado'', interrompido por outro que falou que ''cada um faz o que quiser''. E foram.
Mais tarde, longe da situação, alguém comentou que ''o Carlão é muito lôko!'', como se o nomear pudesse traduzir e resumir alguém para um território de conforto. Que, uma vez rotulada, a esfinge deixasse de interrogar. Houve mais comentários: ''eu não dou conta. sujeito quer extravazar, vai extravasar na escrita, procura uma dança, uma expressão. Agora, misturar isso com vida não dá''. E disse mais: ''tá esquisito direto!''.
Uma atitude, no mínimo, capaz de levantar algumas questões, como o limite da arte em nossas ações cotidianas. E, mesmo, sobre algum estatuto de normalidade. No quê, ou, em quê, ao criar um ruído de informação outras potências se colocam em movimento? Sendo que a própria tentativa de interpretação já é a primeira delas. Em todo caso, alguém parado pode nos ensinar mais sobre a noção de movimento e do momento do que quem corre, sem sentir o planeta se mover.
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