ALFABETO VISUAL - Ano novo, velhos mestres O tempo da arte
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
O tempo da arte
A artista iugoslava Marina Abramovich, disse, em uma entrevista para a compositora e performer Laurie Anderson, que quer viver até os 120 anos. Mas ela é nova demais para dizer isso, pois terá de viver mais o dobro da idade que tem, aceitando esse desafio como um trabalho de arte. Como outros, que fez e faz, superando os limites do corpo: físicos, psicológicos e sociais.
Óbvio que a idade impõe limites às pessoas, mas o centenário que será comemorado, no próximo ano, de Dercy Gonçalves e Oscar Niemeyer, exemplifica o fato que podemos viver produtivamente sem temer o tempo. Tempo que, no caso da produção em arte, é bastante relativo. Noel Rosa, por exemplo, viveu apenas 27 anos, mas construiu uma obra bastante significativa.
Longa é a arte
É senso comum achar que artista morre jovem e só depois de morto sua obra é valorizada, mas isso não é nenhuma regra. Matisse viveu mais de 80 anos. E Picasso passou dos 90.
Idade, porém, só pelo tempo de vida, não diz muito. É preciso viver com alegria e prazer naquilo que faz. Considerada a precursora da dança moderna no Brasil, a bailarina, coreógrafa e atriz Renée Gumiel, nascida francesa, partiu ano passado, aos 93 anos de idade, ainda em cena, nos últimos momentos de sua vida. O ano que se foi trouxe, mas também levou muita gente mestres que vão deixar saudades: Sivuca, Haroldo de Campos, etc.
Mas a hora é de pensar no novo, que sempre vem, como disse o bardo trovador, imortalizado na voz de Elis Regina, em Como nossos pais. Aliás, a imortalidade é um caso à parte e, dizia o pintor Paul Klee que ele vivia entre os que já se foram e os que ainda estão por vir. E como longa é a arte, breve é a vida, vamos pedir vida longa a todos os que resistiram a 2006, e graças à arte que fazem, resistirão à 2007, 2008, 2009...
Entre o passado e o futuro
Os sonhos não envelhecem e certos vinhos se aprimoram com o tempo. A sabedoria nos ensina a esperar, mas os desejos dos quais somos feitos, querem tudo agora, ao mesmo tempo: troca-se um vinho velho por um ano novo! Rindo ou chorando logo mudaremos nossa folhinha de calendário, deixando para trás mais um ano: houve guerras, copa do mundo, eleições e apelos de consumo para o fim de ano.
Um grupo de São Paulo resolveu fazer um protesto e, ao invés de boas festas, eles resolveram criar um luminoso escrito afaste-se. Alegam que, ao colocar o luminoso na fachada das casas, as pessoas estariam sendo mais sinceras com aquilo que esperam dos outros. Desafiar o coro dos contentes era o lema do poeta Torquato Neto, que seja!
O que a gente não pode deixar de fazer é olhar para o que passou e está passando sem tirar lições para a nossa vida. Aproximar-se do passado para compreender o futuro. E chegar até os 120, como quer Marina Abramovich, com
alegria e saúde.
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