Quando a arte urbana começou a ganhar destaque com as pichações de protesto e depois com grafites como os do artista Keith Haring, nos EUA, no final dos anos 70 para o início dos 80, um novo espaço de atuação abria-se para o campo das artes plásticas que já vinha trilhando um caminho para tornar-se ''menos'' comercial e insubordinada ao sistema institucional galerias, museus, críticos, curadores, etc. que era o que garantia o ''selo artístico'' a determinada obra e seu autor.
Em São Paulo, por exemplo, Alex Vallauri, ficou conhecido pelo seu personagem ''A rainha do frango assado'', que ele pintava nas ruas da cidade, com spray e moldes diferentes para cada cor e forma. Logo vieram outros e o túnel de acesso da avenida Paulista para a Dr. Arnaldo tornou-se uma espécie de ''galeria de arte'' e ''caverna moderna'', onde os artistas pintavam suas paredes.
Depois disso apareceram grafites de nomes de pessoas pintados e do movimento urbano do Hip Hop, apostando nas cores fortes e quentes, na visibilidade do trabalho, ou simplesmente na pura demarcação de território, como no caso dos pichadores, que arriscavam suas vidas levando seu spray aos lugares mais insuspeitados e perigosos. E, junto a isso, a comercialização do grafite. Uma vez que se tornara Arte, poderia ter seu valor em dinheiro. E o grafite passou a se tornar um negócio como qualquer outro de publicidade.
Mas, para quem vinha dos questionamentos propostos pela arte moderna do começo do século XX até a arte conceitual, passando pelo Situacionismo, Fluxus, performances, happenings, etc., o caminho a ser tomado deveria ser o de radicalizar os paradigmas das vanguardas estéticas. Ainda que tudo estivesse em xeque, ou em crise, como se costumou atribuir a um certo período. Desde as nomenclaturas até o modo de agir diante das estruturas de poder.
Assim, a idéia de grafite como pintura em muros urbanos, simplesmente, já não dava conta das expectativas de uma arte que queria se impor menos por aderência do que por uso, crítica e reflexão do ambiente social das cidades. E as ações de intervenção urbana passaram a ter uma conotação que extrapolava o significado usado na arquitetura, ou em campanhas de serviço social, como essas de vacinação, por exemplo.
Claro é que tudo o que é feito na cidade não deixa de ser uma Ação de Intervenção Urbana. Até mexer no bolso das calças. Ou ficar dentro de casa. E o significado do termo passa a cobrir um arco de amplas situações, difíceis de se adaptarem a um mesmo pensamento esquemático. E, além disso, colocaria em oposição o fato de que a Ação de Intervenção Urbana não abarcaria uma idéia de Intervenção não-Urbana a ser feita em estradas, sítios, na natureza. Ou mesmo em redes telemáticas, como internet, telefone, etc. Quer dizer, quando alguém diz que é pintor, logo sabemos o que essa pessoa faz. Mas o que diremos de alguém que faz Ação de Intervenção Urbana? Grafiteiro?
Independente da nomenclatura, muita coisa tem sido feita seja por iniciativa de grupos, ou esforço individual abarcando as mais diferentes manifestações. Como pintura de muros e paredes, mas também em imagens repetidas feitas em adesivo ou gravuras, coladas insistentemente na cidade que acabam se tornando um código visual ou mesmo com materiais amarrados, pregados ou colados, desafiando o uso ostensivo da propaganda publicitária.
Sobre esse tema, o artista curitibano Fernando Rosenbaun que está expondo na Casa de Cultura da UEL, na Rua Mato Grosso, 537 diz que se baseia em dois métodos de ação: um, tático e outro, estratégico. O primeiro seria no caso do artista passar em um determinado local e sentir que um trabalho seu poderia ser feito ali. O segundo caso é quando o artista escolhe o local e pensa um trabalho para ser realizado posteriormente. Rosenbaun destaca ainda o caráter de registro fotográfico do qual ele tira partido depois de suas intervenções, transformando o registro também em obra.
Suas imagens de efeito óptico levam o espectador para um estado, diríamos, de hipnose. E, dependendo da colocação podem ter um efeito perturbador, como no caso de uma delas coladas em um muro perto de um ponto de táxi, em que o motorista é obrigado a olhar a imagem toda hora. Outras, como a colada em uma placa de trânsito, levam a uma inevitável reflexão sobre o tamanho da imagem de uma moça vendendo celular no centro da cidade e as leis urbanas.
Rosenbaum, assim como os demais ''grafiteiros da intervenção urbana'' sabem que a luta é entre o gigante e a formiga, que se multiplica e espalha, tomando conta, aos poucos, do terreno. E que sua arte deve ser tão mutante quanto é a cidade, em constante transformação de seu espaço. Por isso fazem trabalhos para durar o tempo de ser arrancados, ou modificados, ou percebidos em lugares onde antes ninguém ainda tinha atentado para seu uso.
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