Abro ao acaso as páginas do livro-oráculo I-ching, perguntando sobre o que
esperar para os eventos de artes visuais de 2006, além, óbvio, da Bienal
Internacional de Artes, em São Paulo, no fim do ano. E ele me responde com o
hexagrama 21, morder, significando que ''quando há algo que pode ser
contemplado, há algo que cria a união''. Nesse caso, a contemplação pode ser
o alimento e a união, as mandíbulas se fechando para triturar a comida.
Diz,
também, que a mordida requer certa violência para separar o alimento em
partes, mas que essa violência é compensada pelo arbítrio de um juiz, que
impede que esse ato seja transformado em crueldade.
Eu sabia que o I-ching não ia dizer que a bienal, ou outro evento qualquer
de arte ia ser assim ou assado, mesmo porque a maioria dos sistemas de
adivinhação, como o jogo de búzios, o tarô, as cartas de baralho, etc. não
são específicos a uma situação, mas, que ele se refere às situações através
de metáforas. Tornando seu significado dependente de cada interpretação que
cada um faz do que ali está ''escrito''.
Mas, no caso, se há um juiz e se há
justiça, como se diz, que se faça! E que todos tenham o que mastigar.
Penso em perguntar ao I-ching sobre as eleições no Brasil e a Copa mundial
de futebol, mas prefiro que o acaso determine o que há de ser. Adivinhar as
coisas antes que aconteçam é chato, porque sempre podemos contar com a
esperança de um ''elemento surpresa''.
Melhor voltar ao acaso. E que fique claro: acaso não quer dizer falta de
planejamento. Aliás, é preciso continuar escrevendo roteiros. Até para que
possam ser alterados. E esse é um dos ensinamentos que o acaso nos
proporciona: saber aceitar as contrariedades. E não desesperar quando
queremos algo e coisas completamente estranhas e inimagináveis começam a
acontecer. Esse é o nosso exercício diário de tolerância e capacidade de
transformar as adversidades em oportunidades. Parafraseando Oiticica: ''Da
adversidade vivemos''. De fato, a etimologia da palavra crise, segundo o
dicionário Houaiss, indica que ela é ''uma ação ou faculdade de distinguir,
ação de escolher, decidir, julgar''. E o que é a vida e, também, a arte,
senão ter de escolher, o tempo todo?
John Cage, o músico e compositor, que, entre outras, ''inventou'' o silêncio
na música, também tinha como método fazer música a partir de combinações
aleatórias do jogo de I-ching. Embora isso não seja mais novidade nenhuma
hoje em dia com o uso do computador uma frase qualquer pode ser combinada
e recombinada quantos milhões de vezes se quiser o fato é que Cage herdou
do espírito dadaísta do começo do século 20 essa maneira de pensar e ver a
arte.
Foi, aliás, um pintor, Hans Arp que, ao deixar cair papéis no chão do
seu atelier, percebeu que poderia colá-los em combinações infinitas,
descobrindo, assim, um território fértil, até então inexplorado, no
ocidente. Segundo Hans Richter, escritor e artista do mesmo período, ''o ato
de grandeza de Dada residiu no reconhecimento de que a razão e antirazão,
sentido e absurdo, planejamento e acaso, consciência e inconsciente são
interdependentes e constituem parte necessária de um todo''.
Assim, não adianta sofrer por antecipação. Se o Brasil vai ganhar ou não a
copa, se vai dar o de sempre, na eleição. Se a bienal vai apontar algum
caminho na arte brasileira, como acontecera na década de 50, ao trazer o
concretista Max Bill e sua ''unidade tripartite'' para a mostra. O que é
preciso,
é fazer o que tem de ser feito: ''El camino se hace al caminar'', diz o
ditado.
E eu, que já estava pronto a desejar boa sorte a todos, em 2006 já que não
podemos contar, exatamente, com a certeza do que possa acontecer
lembrei-me de um poema do primeiro poeta ''hippie-beat'', Walt Whitman
(1819-1892), que diz mais ou menos assim: ''agora já não desejo boa sorte.
Agora a boa sorte sou eu. E ela anda comigo aonde quer que eu vá''. Vamos
juntos, então!
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