''Viva a Vaia'' é o título de um livro de poesias de Augusto de Campos, em que ele mesmo introduz no prefácio uma epígrafe assinada por J.C. dizendo: ''Aquilo que o público vaia, cultive-o, é você''. E diz bem sobre o momento político, moral e econômico pelo qual estamos passando. Grande momento para se repensar a crítica e para fundar uma nova visão sobre os acontecimentos nacionais, tais como dependência, colonialismo, criação de currais eleitorais, promessas de candidatos, posicionamento de intelectuais e dos artistas frente à situação.
Para quem gosta de lembrar os grandes acontecimentos, dias 7 e 11 de setembro são duas datas que marcam histórias que dão o que pensar. Datas relativas à Independência do Brasil e ao primeiro aniversário do atentado ao WTC, nos Estados Unidos. E, se a princípio julgamos nada ter a ver uma com a outra, com mais atenção, porém, paralelos podem ser perfeitamente traçados.
Primeiro porque o poder que os EUA exercem sobre nossa cultura e economia faz-nos deles dependentes, embora o resultado pernicioso disto se torne, a cada dia, mais claro. Há tanta pressão interna e externa insistindo em nos transformar em uma espécie de ''sucursal'' dos norte-americanos, que falar disto é cair em um lugar-comum que torna qualquer discurso inócuo ou assunto de gente chata.
Do outro lado, nossa independência ainda é contada nas escolas como um feito heróico quando, na verdade, apenas deixamos de ser colônia de Portugal, passando a ser colônia da Inglaterra e, hoje, dos Estados Unidos. A mesma elite econômica nacional continua vendendo o país e ditando inclusive o discurso das oposições. Mas deixar a situação simplesmente correr não é solução.
Ser do contra também não é fácil, mas não podemos nos entregar ao purismo, acreditando que não estamos afundados até o pescoço nessas contradições. Pode-se negar o pleito eleitoral, os discursos dos políticos e intelectuais; pode-se negar a arte, ou aceitá-la como salvação, mas não se pode ignorar que temos sido dominados pelo pavor de perder nossas referências éticas e estéticas, para não abrir mão das nossas verdades tão bem estruturadas. Talvez sejam elas que não nos permitem ver o óbvio.
Qualquer brasileiro em sã consciência desejaria comemorar realmente a Independência do Brasil como uma conquista, de fato. Qualquer pessoa, com um mínimo de equilíbrio deveria repudiar a morte tanto dos inocentes dos EUA, quando a destruição não televisionada do Afeganistão, por vingança. Principalmente porque foram os EUA que treinaram, financiaram e armaram seus próprios inimigos quando a eles interessava destruir outro povo, em outra guerra.
Precisamos nos reinventar a partir de nossas potencialidades naturais, intelectuais, políticas e artísticas. Um dos caminhos pode ser pensado através da possibilidade de atuação por Novas Bases da Personalidade. Ou seja, uma estética da mimese, da camuflagem, em que é real parece ser real, onde o que é óbvio se torna armadilha, onde o que é, parece ser. Por exemplo, uma unidade virótica, desenhada em forma de um hexágono, passa a assumir o papel de um elemento perturbador em determinado ambiente. Algo híbrido entre várias esferas, incluindo arte, política, sociologia, ciência, etc., assumindo o que é próprio de nossa cultura híbrida, mesclada, um ''caldeirão de raças'', como diria Oswald de Andrade.
É preciso criar formas de agenciamento, estratégias de sedução, jogos sobre esses jogos de armar, arapucas conceituais sobre as arapucas da propaganda ideológica oficial. E neste sentido, não aderir a nenhuma forma de crítica objetiva, apontando o dedo contra qualquer tipo de situação opressora, mas usando a força e violência que transforma milhões em vítimas contra ela mesma, a favor do vento, como um contragolpe de capoeira, usando a força do inimigo. Como se diz em Londrina: ''para ver a Medusa, use rayban espelhado''.
Como dizia Nelson Rodrigues: ''toda unanimidade é burra!''. Viva o dia 7, viva o dia 11, o mundo não acabou. ''Não cabe ao artista emitir opiniões simpáticas!''. Não temos tempo a perder! Viva os clichês! Viva a vaia!
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