- Conceituada como um grande acontecimento, incluída no calendário de museus da Europa e dos Estados Unidos, a mostra Tropicália, de curadoria do argentino Carlos Basualdo, atualmente em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, faz uma homenagem/remomemoração dos 40 anos do movimento Tropicalista, no Brasil. A montagem privilegia um recorte histórico, apresentando o trabalho de artistas atuantes à época, com outros, contemporâneos, cujos trabalhos se relacionam com aquelas idéias desenvolvidas por Hélio Oiticica e seus companheiros de arte.
- O movimento Tropicalista - honra e glória da arte verde-amarela - enfim, passa por um momento de reconhecimento internacional, trazendo divisas de todas as espécies para terras tupiniquins. Hélio Oiticica, Lygia Clark, Caetano Veloso, Gilberto Gil e todos os demais - grandes - daquele fértil período, conquistam, cada vez mais, o mundo globalizado. Como diz Tom Zé - outro tropicalista - sobre a Bossa Nova, o Brasil deixa de exportar a mais baixa forma de geração de capital, que é a matéria-prima do extrativismo, para exportar a mais alta forma de trabalho humano, que é fruto do espírito: a arte.
- Abacaxi, banana, mulata, samba, carnaval, futebol, programas populares de televisão, favela, animais e aves exóticas, paisagem, beleza natural. O exótico passa, com o Tropicalismo, a ser assumido como parte das composições musicais, como tema para pinturas, esculturas, dramaturgia, etc. Serve como exaltação, denúncia, inspiração para um país mergulhado na ditadura e em processo de industrialização. Guitarras elétricas invadem a música popular. Materiais não considerados como ''artísticos'', como pedrinhas, plásticos, sacos, coisas ordinárias, passam a fazer parte dos ateliês dos artistas. Saem do espaço plano do quadro pendurado na parede para o espaço tridimensional, incorporando o entorno, a paisagem, a arquitetura. Mudam a maneira de ver e pensar a arte.
- Além disso, o que torna radical a transformação conquistada a duras penas pelos artistas daquela época é o fato de terem levado a questão da arte para além da obra, destacando a questão processual, participativa, cujo acontecimento artístico só poderia ser experimentado caso o público interagisse com a proposta do artista: o público modifica a obra e a obra modifica o público. Então, o público se modifica e a obra, também. Tudo passa a ser uma questão de contexto. Já não faz mais sentido criar uma obra para a eternidade congelada, mas para que ela seja uma proposta de transformação no tempo, além de uma incorporação no espaço onde ela é apresentada. É isso que tem feito nossa arte ser ''descoberta'' lá fora, a famosa ''desmaterialização''.
- Quando Lygia Clark chama de ''objetos relacionais'' suas invenções, ou quando Hélio Oiticica convoca as pessoas a participarem de suas obras, há aí uma força que hoje já nem damos conta do quanto aquele gesto foi e é radical para a compreensão da questão artística. Guardada as devidas proporções, representa algo como a descoberta da perspectiva, no Renascimento, em relação às figuras toscamente colocadas na superfície dos quadros, na Idade Média.
- Mas o que interessa aqui - para fazer jus ao trabalho desses artistas - é pensar se a remontagem de um desses trabalhos pode ser considerada um original da obra do artista, ou se um trabalho portador dessa radicalidade conceitual não se transformaria apenas em um objeto morto, como texto relatando um caso, em uma época passada. Digamos, como o registro em vídeo, ou em foto, de um acontecimento. Apenas um documento, ou um tesmunho do que foi aquilo, em certo momento. Afinal de contas, o próprio termo museu vem carregado da interpretação de ser um conservador e obras. E, para que se conserve algo, é preciso, de alguma forma, congelar, impedir que mudanças atuem na matéria, modificando seu estado de ser.
- Vejamos o que diz Ferreira Gullar, no Manifesto Neoconcretista, de 1959 - assinado inclusive por Lygia Clark - que concebeu a obra de arte como um organismo vivo: ''... nem como 'máquina' nem como 'objeto'''. Portanto, uma obra engessada tanto conceitualmente como fisicamente no tempo perderia suas qualidades ''orgânicas''.
De fato, é uma grande retrospectiva essa exposição, mas deve ser vista como um documento de época, onde as remontagens decoram o discurso da arte. E não como arte, exatamente, uma vez que esta se modifica no momento mesmo em que é lançada, capturando o público participante que interage com a obra, modificando e sendo modificado por ela no tempo e no espaço.

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