ALFABETO VISUAL - A matemática do imprevisto
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de junho de 2005
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha2 
- Linguagem - Desde aprender a andar, até falar, ou mexer no computador, tudo
pertence a um sistema de códigos cujas partes se relacionam a fim de colocar
em ação todo um processo de coisas que acontecem segundo determinados
objetivos. A leitura de um texto, por exemplo, depende do conhecimento das
letras do alfabeto, de como essas letras se relacionam para formar uma
palavra, como essas palavras se juntam para formar uma frase, como a frase
se relaciona com outra e qual o sentido daquilo que está sendo dito.
Através do acesso a esses códigos, é possível criar linguagens capazes de
expressar as mais diferentes possibilidades comunicativas. Podemos falar
tanto em linguagem corporal, por exemplo, quando linguagem escrita,
linguagem de computador, etc. E, dentro de cada uma dessas ''linguagens'', é
que se criam mais e mais possibilidades de leituras, sem fim.
- Cérebro eletrônico - A ciência passou, ao longo desses últimos cinco
séculos, a ser a porta-voz da eficácia e da racionalização das decisões que
determinam nossas ações. Ela é exata e justa e, portanto, costumamos pautar
nossas resoluções sob seus métodos, dispostos a acreditar na verdade
comprovada que seus resultados apresentam. Mas, se a ciência busca sempre a
exatidão, o mesmo não se aplica ao ser humano, que depende de fatores
subjetivos para viver suas escolhas. Portanto, mesmo que o resultado de seus
métodos seja exato, isso não quer dizer, necessariamente, que a escolha de
sua pesquisa tenha sido melhor do que não tê-la feito, por exemplo.
- Ciência e arte - Pitágoras, a quem o universo poderia ser pensado em
números, sistematizou a notação musical baseado em uma corda que ia se
estendendo em intervalos regulares, criando assim a notação musical. Quem
estuda música sabe que seu princípio é matemático e são suas combinações que
produzem a melodia. Como a linguagem do computador, baseada em combinações
numéricas.
Entre 1921 e 1925, o artista Marcel Duchamp se ocupou de um projeto chamado
de ''ótica de precisão'', criando objetos que giravam por um motor, criando
elipses, que atraíram alguns cientistas interessados no mesmo tipo de
experiência, mas, segundo ele, seu único interesse nesse tipo de pesquisa
era a diversão.
A lógica da arte não é a mesma procurada pela ciência. São exatidões, ou
''verdades'' que podem ser complementares, mas suas buscas são por resultados
diversos uma da outra. Uma arte que explique perde sua função poética. Uma
ciência que não procure resultados é inócua. Ambas dependem da manipulação
de códigos específicos. Ambas pertencem ao universo da linguagem. Ambas se
constituem de signos manipuláveis mais ou menos intercambiáveis.
- O artista como medida - Em um texto sobre o trabalho do artista Cildo
Meireles, o crítico Paulo Herkenhoff, diz que a obra ''Fontes'' - réguas de
carpinteiro, com numeração alterada - é uma espécie de homenagem à última
pintura feita por Van Gogh, ''Corvos no Trigal'', pelo fato de utilizar
figuras pintadas em tinta preta (os números e os corvos) sobre fundo pintado
em amarelo (a cor da régua e do trigal), comentando sobre qual era a medida
para o artista. Ou seja, sua medida é a desmesura.
Alguns trabalhos necessitam de cálculos sofisticados de engenharia para
serem executados, como o realizado por Nelson Félix, no evento artecidade,
há alguns anos atrás, rebaixando o chão de uma antiga fábrica Matarazzo, em
São Paulo, e suspendendo-o por cabos de aço, alterando, inclusive, a
estrutura do prédio. Mas, nem por isso sua intenção era ''científica''. Sua
exatidão estava no fato de que, ao se deparar com aquele ''monumento'',
qualquer pessoa levaria uma espécie de susto ou vertigem, para pensar, em
seguida, que a ''verdadeira'' linguagem da arte é aquela cuja exatidão está em
percebermos que diante de nossos olhos nada falta e nada sobra em um sistema
de códigos onde tudo se relaciona pela exatidão e lógica de nossas emoções.
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