ALFABETO VISUAL - A loucura e a arte de se locomover por brechas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de dezembro de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2<br> ''Os loucos são como os beija-fl 
A figura do louco está associada com uma imagem romântica, de dimensões lúdicas, quase abstratas, como se ele estivesse ''fora do mundo'' , não tivesse um lugar de existência, quase como não se tivesse que pensar sobre sua condição na sociedade.
Nomeamos as coisas para que possamos compreendê-las, mas ao nomeá-las as perdemos, pois elas são substituídas por um código, por uma numeração, uma ''identidade reconhecível'' que é apenas uma intermediação da coisa mesmo, conosco. Não mais elas, mas algo entre elas e nós.
Louco é quem, por amor, é capaz de cometer atitudes extremadas. De quem, por paixão, entrega-se a uma missão. Alguém que, sabe-se lá por quê, comete atos aparentemente sem sentido. Louco é quem aceita as regras da loucura para disputar um jogo que sabe, de antemão, quem será o vencedor da partida. Louco o santo, o poeta, o amante. O passageiro de um ônibus lotado, o motorista dentro de um carro com ar-condicionado, o pedestre atravessando o sinal fechado. O ir e vir do trânsito na cidade sem que ninguém se pergunte o que, de fato, faz ali. O engraçado da loucura é que, por mais risível que sejam seus efeitos, ela não possui nenhum humor.
Falar de arte e loucura é como chover no molhado. Se a dimensão da loucura, do absurdo, da inutilidade, do contra-senso, não tiver assento na ''alma'' de todo e qualquer artista (artista como abreviação de uma multidão de ''loucos''), então há algo errado que, com certeza, vai fugir dos parâmetros estabelecidos, fazendo isso se tornar, novamente, uma atitude artística. De Van Gogh, Artaud a Bispo do Rosario, Jardelina, Gentileza. Dos dadaístas, anarquistas aos doidos/santos/profetas do agora. Sempre com um ingrediente de espiritual, mágico, encantador, inspirado, perpassando a dimensão do Ser.
E esse ''ingrediente'' faz com que o ''louco'' se aproxime da figura do ''xamã'' , do mago, do bruxo, mesmo que o milagre proporcionado seja apenas uma canção: ''todos choram/ mas, só alegria/ me perguntam o que é que eu faço/ e eu respondo: milagres'' (Cazuza).
E, junto à loucura - que implica também em ousadia e desprendimento por parte daquele que a usa (quando por ela não é usado) - os milagres são coisas inexplicáveis da vida, e a gente só sabe deles depois que acontecem.
O milagre dá ao jogador o lado exato que deveria cair o dado. Unge o amante com o amor do ser amado. Transforma o esforço de linguagem em aliado, faz o poema ser brotado. Oferece ao santo o sacrifício, para que sua missão tenha resultado. Ela acontece todos os dias, todas as horas, o tempo todo, muitas vezes sem que a nossa atenção esteja voltada a esse fato.
Mas, se a loucura é um estado em que, por si só, não produz consciência, o milagre, por sua vez, também não altera o estado de realidade das coisas. Mesmo a arte, hoje, da forma como é concebida, não consegue tocar as pessoas, sensibilizando-as. Ou, se o faz, seu resultado é quase inócuo. Assim, é preciso compreender e aceitar os fatos como eles nos são apresentados, como se o mundo fosse um palco, e a loucura, o milagre e até a própria arte fossem personagens que nos indicassem passagens para nos locomovermos entre frestas e brechas. Entre os vãos existentes nas rachaduras da realidade em que vivemos.


