ALFABETO VISUAL - A invenção do fácil
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de agosto de 2004
Rubens Pilegi Sá<br> Especial para a Folha2 
Uma revolução por dia Se estivesse entre nós, o poeta Paulo Leminski teria completado 60 anos ontem. Morto em 1989, aos 44 anos, até hoje seus poemas, suas idéias estéticas, suas traduções ainda exalam aquele perfume de descoberta e invenção que tanto influenciou e continua a influenciar a inteligência e a sensibilidade das pessoas, das mais diferentes formações e gerações. Quem, depois de ler seus versos, não teria arriscado uma rima sequer, que não se parecesse ao estilo ''fácil'' de fazer poesia por ele inventado? Fácil como fazer ''uma revolução por dia'', para traçar um paralelo com o ideal do líder revolucionário Leon Trotsky, a quem Leminski dedicou uma biografia. Fácil depois que todos viram com se faz para ''descobrir a América'', como fez Colombo, ao deixar o ovo em pé. Fácil para quem, antes de tudo, conhecia o latim. Para quem já tinha escrito um livro como o Catatau. Fácil, mas foi ele quem inventou (fez parte de sua invenção) e ninguém des-inventou ainda.
Versos como ''confira: tudo o que respira conspira'', ''amei em cheio/ meio amei-o/ meio não amei-o'' ou ''nuvens brancas/ passam/ em brancas nuvens'' só para ter o gosto de relembrar um pouco nosso bardo curitibano já dão uma idéia dos ''caprichos e relaxos'' que o poeta, compositor, tradutor, homem das letras Leminski, criava.
Intersemiose e independência crítica Em um livro de ensaios organizado por Alice Ruiz e Áurea Leminski Ensaios e Anseios Crípticos duas questões de seu pensamento criativo tratam da intersemiose entre linguagens onde ''códigos interpenetram-se produzindo híbridos mutantes...'' e da libertação do artista em relação ao crítico especializado, que passa a aferir valor estético à criação artística. Com humor fino e aguçado fala desses dois personagens umbilicalmente ligados da criação e da teoria da criação. Em uma passagem de seus artigos está escrito: ''...eles (os teóricos) lá no bem-bom da análise, enquanto a gente aqui nas agruras das sínteses...''. Seus predecessores e mestres também estavam conectados com essa idéia de hibridização e influências mútuas entre linguagens. O poeta Haroldo de Campos, um dos pais da poesia concreta, aponta nesse sentido. E o mestre de seu mestre, o poeta Oswald de Andrade, pai da poesia pau-brasil, do início do Movimento Modernista de 22, defendendo a idéia de ''caldeirão das raças'' em nosso país, criou poesias a partir de influências da pintura e do cinema, com enorme poder de síntese e surpresa. Uma dessas poesias é cinema puro e pode-se perceber, inclusive, no diálogo, acompanhado de uma narração, o movimento da câmera se aproximando, em zoom, da cena. Chama-se ''O capoeira'': - Qué apanhá, sordado? / - O quê? / - Qué apanhá? / Pernas e cabeça na calçada.
Homenagens Casado com Tarsila do Amaral e tocado pelas cores e formas da pintura e da escultura de sua época, foi ele quem cunhou o nome de ''Abaporu'' ao quadro mais famoso do modernismo brasileiro, deixando claro que para fazer o que quer que seja, é preciso ''ver com olhos livres''. Inventor dos poemas-minuto, pré-concretista, poeta da síntese máxima, seu antológico poema que tem por título ''Amor'' e por verso uma única palavra: ''humor'', abre caminho para as ''facilidades'' que um Leminski, tantas gerações depois, iria usar e abusar sem perder a graça e a elegância.
Aliás, nos prefácios da reedição das obras de Oswald de Andrade, o poeta Haroldo de Campos, também praticante do exercício crítico e teórico, deixa clara a importância do poeta modernista no cenário das artes no Brasil, colocando-o lado ao lado do melhor da produção nacional e internacional e que até hoje produz efeitos sobre nosso horizonte cultural.
Então, entre hibridizações de linguagens, independência crítica, influências e facilidades, para comemorar os 60 anos que Leminski estaria fazendo, fica um último poema, de sua safra, que pode ser lido, também, como um manifesto, uma sentença, uma premonição: ''moinho de versos / movido a vento / em noites de boemia. / vai vir o dia / quanto tudo que eu diga / seja poesia''. Que seja hoje!
[email protected]
As informações e opiniões emitidas neste espaço são de responsabilidade do colunista


