Buscando uma definição para a obra de Bill Lundberg, a crítica de arte Valerie Cassel ressalta seu pioneirismo na arte da projeção, colocando-o, inclusive, à frente de muitos nomes que se tornaram referências no mundo do vídeo e da projeção de imagens. Sua vasta produção, sempre ligada a projeções de imagens nas mais diferentes superfícies, são sempre permeadas por discurso comportamentais e psicológicos, onde o jogo entre realidade e ilusão não é apenas uma habilidade usada para se contar uma história, mas um recurso de linguagem em que imagem projetada, mobiliário e arquitetura se fundem e se confundem, criando inúmeras possibilidades de leitura.
Fazem parte de seu portfólio de trabalho - resultado de mais de 35 anos de pesquisa - instalações em que pessoas são projetadas dormindo sobre travesseiros espalhados pelo chão da galeria de arte; ou mergulhando, projetadas em uma piscina; lavando as mãos, projetadas sobre pias reais; copos; mesa de ping-pong; etc. Sempre apresentadas de maneira sedutora e surpreendente, roubando nossa atenção para questões profundas da natureza humana.
Na entrevista que se segue, Bill - que é também diretor do Departamento de Arte e Tecnologia da Universidade do Texas, em Austin, EUA - diz que a imagem projetada em tela plana é uma ditadura da indústria cinematográfica e que seu assunto, em arte, sempre foram as pessoas em seu mundo particular.
Como foi o início de sua carreira?
Bill Lundberg - Eu era um pintor e meu trabalho de conclusão na Universidade de Berkeley foi em pintura, em 1966. Foi um período de guerra, de repressão, mas também de inovação. Berkeley tornou-se uma encruzilhada de muitos intelectuais e estava ocorrendo uma Renascença do cinema experimental. Durante aquele tempo eu expunha minhas pinturas em vários museus e galerias da Califórnia, ganhando prêmios e fazendo sucesso. Um dos meus professores achava que o meu trabalho era tão bom que conseguiu para mim uma exposição em uma das melhores galerias de Los Angeles. Mas eu me revoltei com essa idéia e resolvi parar de pintar. Tudo isso foi reforçado, de certa maneira, por pessoas que eu conheci, como, por exemplo, John Cage. Ele tinha feito duas performances em Berkeley, que eu tinha ido. Mas eu não entendi o trabalho dele. O que eu entendi foi que aquilo era um conjunto de valores diferentes e que falava sobre liberdade.
Como era o clima da época?
Bill - Naquela época eu não apreciava o clima estético nos Estados Unidos. Era o período em que Andy Warhol estava dominando a cena e havia um extremo clima de pessimismo e sarcasmo, ao mesmo tempo. Então eu decidi viajar por 6 meses pela Europa e minha primeira mostra foi em uma galeria de fotografia, em Londres. Depois daquilo as coisas aconteceram muito rapidamente. Eu não tinha a menor idéia para onde meu trabalho estava indo. Eu não sabia que o que eu estava fazendo era arte ou não. Mas sabia que o que eu estava fazendo poderia dar frutos. Estava mais interessado em descoberta e invenção. Organizei minhas idéias em termos de performance e consegui interessar várias pessoas no que estava fazendo, porque tinha a ver com a relação que umas pessoas têm com as outras. Tinha a ver com os desajustes das relações humanas. Eu fiz várias performances com grupos de até trinta e cinco pessoas. E estava começando a usar vídeo para registrar essas performances. As pessoas pareciam gostar do que eu estava fazendo e comecei a receber convites para me apresentar em outros lugares.
Essas performances como eram?
Bill - Bem, uma delas se chamava ''Ele'' (Him) e era bastante simples. Eram três pessoas que conversavam sobre alguém, mas ninguém sabia quem era a pessoa sobre a qual o outro falava. Falavam como ele era, seus pontos positivos e negativos, como eles se sentiam a respeito deles. E eles criaram uma personalidade multifacetada que o público pensava tratar-se de uma só pessoa. Mas eram três pessoas diferentes falando de outras pessoas. Como o nome das pessoas de quem se falava fora substituído por ''ele'', o público acreditava piamente tratar-se de uma pessoa só. Descobri que cada pessoa colore a outra de acordo consigo própria. Então eu comecei a perceber que essa ilusão de realidade me interessava.
(continua na próxima semana)

mockup