ALFABETO VISUAL - A ausência como milagre
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de setembro de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Se o santo é forte ou fraco. Se o curandeiro cura ou se é um embuste. Se a imagem possui poder ou se ilude apenas. Que importa? Importa a nossa crença, a nossa fé, nossa esperança depositada sobre algo ou alguém que nos traga conforto ao espírito. Queremos nosso sacrifício recompensado em nome da fé.
Uma arte para ser verdadeira, original e autêntica deve possuir o poder de evocar os elementos raros de uma revelação, mostrando ao mesmo tempo, seu poder imanente e transcendental. Mas quando um cristão usa a imagem de um santo como objeto de devoção, adorando uma representação, ele se ilude com algo que, enfim, pode lhe trazer conforto, mas o santo não está ali. Questões de iconografia são mais velhas do que a adoração do bezerro de ouro e remontam desde quando o homem começou a contar histórias, ressaltando feitos heróicos, aparições e acontecimentos fantásticos.
Para não cair raio sobre a casa, queimar uma palha benzida. Para se proteger do mau-olhado, usar uma figa. Tal roupa, tal dia, tal proteção. E mil e uma superstições e lendas que, se não protegem, como se diz, a culpa fica por conta da falta de crença.
O primitivo - como são chamadas as culturas das sociedades tribais e pré-históricas - é sempre lembrado quando se fala em rituais, fetiches e invenções de uma sociedade arcaica. De fato, para eles o mundo é mágico e tudo possui alma. Mesmo um objeto, uma imagem, uma árvore, a água, a terra ou a aparição de um raio no céu invoca forças sagradas. Só que, diferente do iconólatra, as coisas são elas mesmas. Ou seja, como é que uma madeira talhada e pintada pode ser outra coisa senão sua matéria, cor, espessura, densidade, seu corte preciso?
É fácil viver enganando e ser enganado por si e pelos outros, mas também é possível desconstruir esse olhar da mesma forma como ele foi construído, apostando e apontando para a imagem como algo capaz de revelar seus dois lados - sagrado e profano - enquanto elementos que fazem parte de uma mesma unidade, mostrando um ser híbrido entre o que ele de fato é e o que representa ser. E não separados ou excludentes entre si. Um híbrido, um terceiro elemento resultante, incluindo os pólos opostos.
Ter fé para que o milagre aconteça - ir para o céu ou ganhar no jogo da sorte - pode gerar ilusões. E ilusões são matérias tanto quanto a pedra. Descortinar esse véu que separa o sonho da realidade, mostrando um vazio, muitas vezes, aonde aparentava haver um bloco concreto de verdade é da ordem de uma poética que sabe usar a camuflagem como recurso ético e estético. Uma revelação nem sempre da ordem da lógica aparente, mas nunca inócua em seus desdobramentos. Ela sabe grudar na carne dos acontecimentos sua marca indelével. É a fé que inventa o milagre, não os objetos. A desilusão é didática.
[email protected]


