ALFABETO VISUAL - A arte de se locomover pelos vãos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de agosto de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Situações simples são as mais difíceis de se encontrar. Por serem tão óbvias, ninguém parece lhes dar o devido valor. Uma maçã, ao cair na cabeça de Newton, enquanto fazia a sesta debaixo da árvore, trouxe à luz a famosa lei da gravidade.
É assim: parece que tudo já está dado. Tudo que nos cabe é iluminar um determinado aspecto que, até então, ninguém conseguia enxergar. O vidente, o profeta, talvez só consigam enxergar mesmo o óbvio. E, como nosso amigo físico, muitas vezes ajudado pelo acaso, no momento em que ele menos se preocupava em resolver a equação que iria mudar a vida de todos: a compreensão de um fenômeno.
De que é que nos ocupamos senão for para servir a vida? Mesmo o distanciamento desta preocupação deve ser levado em consideração como motor de pensamentos. Lembra-se quando você sonhou a solução de um problema? Quando, cantando no chuveiro, lhe veio a maneira do modo de agir para resolver um caso? Foi em Paris que Oswald de Andrade descobriu o Brasil como lugar de potencialidades.
Claro, é preciso levar em consideração os paradoxos, pois o desenvolvimento da consciência tem sido menos democratizado do que o desenvolvimento da tecnologia e alguém continua a pagar por isso, certo? Melhor ficar calado:
silêncio/ economia de palavras/ é ecologia.
O mais fácil é mandar comprar a comida pronta, do que fazê-la. Delegar responsabilidades do que exercê-las. Mandar fazer do que refletir. Afinal, pensar cansa. E, nesses nossos tempos, quem é que ainda tem tempo de deitar-se debaixo de uma árvore para uma simples pausa, breve que seja?
Simples, que se diga logo, pode não ser o menos trabalhoso, nem o mais rápido (pelo menos na aparência), mas todos compreendem que, uma vez que se coloque em prática uma solução simples, era ela, e só ela, a única opção (surpreendentemente) possível, exequível e óbvia.
E aqui ressaltamos duas delas; dois eixos urgentes a se investir: a consciência e o meio-ambiente. Mas o que vem a ser, exatamente, isso? Como aplicar na prática?
Em arte essas definições passam pela transformação da matéria. Ou seja, tudo o que diz respeito à transformação da matéria no planeta, diz respeito, também, à arte. Portanto, o artista consciente de seu papel, hoje, na sociedade, deve agir menos em relação ao rótulo, ou à categoria de arte em que está inserido, evitando ser anacrônico, preocupando-se em ser atual, fazendo de sua ação uma afirmação da vida e da existência. Sua arte deve ser potência para o desenvolvimento da liberdade, da criatividade, da independência e da autonomia (poderíamos dizer: da interdependência) entre as pessoas e o planeta. Para que até o mais simplório entre nós compreenda (perceba, seja sensível) o significado complexo do que está em jogo.
Simples como o agradecimento aos espíritos das árvores que foram entregues ao sacrifício, para que essas letras fossem impressas (retirado do folheto''a arte de viver em tribo'', de Kaká Werá Jecupê).
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