ALFABETO VISUAL - A arte da guerra
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de agosto de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Com o crescente questionamento de valores que nos foram impostos de maneira absoluta como se fossem verdades eternas, ou causas naturais, como a necessidade de uma economia produtiva e industrializada, de consumo, voltada para o mercado, seria também de se perguntar como a arte - que, dizem, funciona como um farol - vem respondendo a este processo.
Agentes de um mundo em transformação, devemos refletir a respeito de nossa atuação diante do quadro que a realidade apresenta. Ou seja, como romper com este modelo suicida e estabelecer novos pactos de solidariedade entre a humanidade e da humanidade com os seres vivos, tarefa não só necessária, como urgente? Não é essa a pergunta chave que se coloca na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 10, aberta segunda-feira, dia 26 de agosto, na África do Sul? Foi o próprio presidente deste país, que é sede do evento, quem declarou: ''Temos agora que mostrar que estamos comprometidos com a solidariedade humana, em lugar da lei do mais forte''.
Não há como deixar de pensar que, com o ritmo de produção em que a matéria é processada hoje, o planeta corre o risco de existir sob ondas e ondas de extermínio coletivo. A tecnologia desenvolvida para a exploração das reservas naturais está além da capacidade de sua recuperação. Não só os miseráveis sucumbirão, mas toda a existência. Antes se achava que o mundo acabava para quem morria, hoje esta já é uma projeção real. Não só os que defendem o capital especulativo, mas até os que defendem o capital produtivo nos termos capitalistas, parecem não compreender essa questão. ''A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte'', diz a música dos Titãs.
Para uma nova compreensão da realidade, uma nova arte também se impõe. Desde o início do modernismo, a criação se faz sobre os escombros da sociedade industrial, utilitarista. Desde Baudelaire, pelo menos. Foi assim com a Europa, na Segunda Guerra, mas desta vez, a questão toda passa pela nossa realidade como nação privilegiada pelos recursos naturais e mão-de-obra competente. ''Para um conceito inédito, novos instrumentos'', ensinamento que pode ser retirado das bases da física quântica. Pensar linearmente um momento que só pode ser vivido na indeterminação e no acaso é impedir novas formas de elaboração da linguagem e, consequentemente, do surgimento de uma resposta autêntica e original à realidade.
Não é à toa, cada vez mais, a ação de guerrilhas artísticas e contra-culturais, inspiradas em movimentos como o Dadaísmo, misturando fronteiras, linguagens e possibilidades onde antes tudo se diferenciava por categorias e especializações. Se há a dissolução das certezas que antes predominavam como motor de uma ideologia que está à beira do abismo, não é, certamente, essa classe, chamada de artistas, quem buscará a salvação de um modelo que não serve mais. Como diz Allan Kaprow, no artigo ''a educação do a-artista'', escrito em 1969, publicado pela primeira vez no Brasil na revista Malasartes, em 1976: ''...contexto, ao invés de categoria. Fluxo em vez de obras de arte. As convenções da pintura, da música, da arquitetura, da dança, da poesia, do teatro, podem sobreviver, mas em uma posição marginal, acadêmica, como o estudo do latim, hoje''.
Não é só. É preciso estar além da crítica, porque esta acaba se transformando em álibi para nos esconder atrás de uma lógica disfarçada em assepsia, que nos impede de enfrentar, de fato, a sujeira, com medo de sujar nossas delicadas e sensíveis mãos de seres comprometidos com a Cultura e a Civilização.
É sobre essas questões que o livro ''Assalto à Cultura - utopia, subversão, guerrilha na (anti) arte do século XX'', de Stwart Home, publicado pela Conrad Editora, nos fala. É isso que um grupo de ativistas têm feito no Rio de Janeiro, saqueando a linguagem e o material de propaganda política espalhado pelas ruas. E várias outras ações, como em discutível prática canibal, no pequeno cartaz afixado em obras de monumento artístico público: ''não queremos arte, queremos guerra!''
Pode ser difícil chamar a atitudes como essas de arte, mas pelo menos elas procuram uma inserção mais contundente no cotidiano do que simplesmente um objeto, uma obra de arte. Cada um que use suas armas!
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