ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS - Uma lição de vida com todas as letras
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terça-feira, 09 de dezembro de 2003
Fernanda Bressan<br> Reportagem Local 
As tardes de sábado geralmente lembram diversão, tempo livre, descanso. Mas um grupo de universitários resolveu utilizar esse momento para contribuir com a educação. O time formado por Miguel Nolasco, 21 anos, Francisco Costa Júnior, 20, Antônio Galli, 20, Marcelo Zanon, 25, Vagner Rodrigues, 21 e Carlos Eduardo Oliveira, 19, se revezam na tarefa de ensinar o be-à-bá para adultos que vivem na zona rural de Londrina. A maioria deles já passou dos 40 e a possibilidade de voltar a estudar encheu a vida de alegria.
Antônia Aparecida Martins Ferreira, 55 anos, lembra que só pôde ir à escola por dois anos. ''Minha mãe teve 10 filhos homens e eu era a mais velha e tinha que ajudar a cuidar deles'', recorda. Entre as alegrias que Antônia teve depois que começou a estudar está a assinatura do nome, que antes era uma tarefa impossível. ''Depois que eu entrei foi uma beleza. Não acreditei que teria essa oportunidade. Esses dias eu fui ao banco e pude assinar o documento'', conta emocionada.
Terezinha Francisca da Cruz, 63 anos, e Isaura dos Santos, 59 anos, nunca tinham ido à escola. Hoje, enfrentam alguns quilômetros de estrada de chão à pé para poder aprender. ''No começo foi meio difícil'', conta Isaura que precisa caminhar uma hora para chegar à sala de aula que fica no salão da paróquia do Bairro Cachoeirinha. Terezinha se alegra por conhecer melhor as letras que antes eram apenas alguns desenhos.
Sonete Marques Silva, 36 anos, também precisou largar os estudos cedo. Hoje, a aluna procura não faltar às aulas. ''Foi maravilhoso. Eu tinha vontade de estudar porque queria ler e agora a gente fica mais à vontade'', diz. Cleonice Tomás da Costa, 41 anos, estudou apenas durante um ano. Quando criança não teve oportunidade, aos 16 ela se casou e só agora está tendo a oportunidade de aprender. ''A gente se sente realizado. Para mim está sendo muito especial'', revela.
Aparecida dos Santos, 52 anos, chegou a frequentar a escola mas teve que parar. ''Adoro vir aqui porque quando eu era criança eu não pude estudar'', aponta. Além do alfabeto, ela estava aprendendo a fazer algumas ''continhas''. Pouco a pouco, os números e sinais matemáticos vão ingressando no dia-a-dia de Aparecida e suas companheiras de classe.
Um dos responsáveis por isso, o ''professor'' Miguel, conta que a inciativa partiu de alguns alunos universitários que conseguiram colocar o projeto em prática através do Ecap (Educação, Cultura e Assistência Paraná). Em funcionamento há dois anos, o ''Alfabetização de Adultos'' trabalha com duas turmas: uma de alfabetização e outra de 1 a 4 série para quem já teve alguma experiência escolar. ''Eles têm muita força de vontade. As aulas são apenas uma vez por semana e têm pessoas que não sabiam nem escrever o nome e hoje já conseguem'', relata Miguel.
Os alunos que estão na turma de 1 a 4 fazem provas feitas pelo governo por meio do EJA (Educação de Jovens e Adultos) para poderem ter o diploma. Um grupo inclusive está continuando os estudos do ensino fundamental onde entram discipinas como geografia, histórias e ciências, também dadas pelos ''professores-universitários''.
Sobre a disposição para dedicar todas as tardes de sábado para o projeto, Miguel aponta: ''Tem que sair um pouco da poltrona de casa. A parte social é importantíssima e é também uma oportunidade para conhecer outros mundos e passar alguma coisa de bom para as pessoas''.
A professora Josefa Aparecida Fernandes, 38 anos, mora na comunidade e se emociona ao ver os jovens dedicando seu tempo para ensinar. Conhecida como ''Cidinha'', ela ajudou a formar o grupo divulgando as aulas na paróquia e também nas casas. ''Era um sonho meu e quando eles surgiram eu vi que era a grande chance'', relata. Cidinha dá aulas para crianças na escola do Patrimônio Espírito Santo e diz que ensinar para os adultos é diferente pela experiência de vida que eles carregam. ''É lindo ver eles deixarem a vida deles para vir aqui. Só Deus para gratificar um trabalho desse'', enfatiza.
E o tempo mostra que o projeto também é gratificante para os ''professores''. Carlos Henrique ajudou na alfabetização dos adultos enquanto esteve na universidade. Hoje ele é formado em Direito e faz pós-graduação em São Paulo. A nova vida não fez com que ele esquecesse a experiência. No início de novembro, ele escreveu uma carta para seus ex-alunos demostrando carinho e afeição. Miguel leu a mensagem para os alunos que expressaram igual sentimento pelo ex-professor, mostrando que além do português e da matemática a escola pode ensinar outras lições que servem para toda a vida.


