‘‘Fazia tempo que não chovia. Ia para dois anos. A terra estorricada. Solo árido, estéril, quebrado. (...) A criação morrendo de inanição, em mugidos dolentes, ou em rinchos de angústia, anunciando despedidas.’’ Com estas linhas tem início o romance ‘‘A Posseira e o Doutor’’, que o ex-deputado Alencar Furtado autografa hoje à tarde, às 17h30, na Livraria Curitiba da Boca Maldita. Dia 31 estará em Paranavaí. Brasília não tem data marcada.
‘‘Este romance é fruto do meu testemunho de vida do início da civilização do Noroeste paranaense’’, explica Alencar Furtado. Ele chegou em Paranavaí no dia 19 de janeiro de 1952, vindo do Ceará, para advogar na região. Nos anos seguintes iria presenciar episódios de tensão e morte envolvendo posseiros, grileiros, fazendeiros, gente do povo, delegados de polícia.
Mauro FrassonAs lembranças desse tempo selvagem nos ermos do Paraná são abrandadas pelo prisma da ficção, segundo o ex-político. Mas a posseira do título realmente existiu - foi sua cliente - assim como praticamente todas as idas e vindas que o livro encerra. Era uma mulher dura de roer, dona de um pedaço de terra ambicionado mas que ela manteve sob seu domínio com garra. Não deu outra: matou quatro jagunços que cruzaram seu caminho.
‘‘Se hoje a justiça é ruim, imagina naquele fim de mundo que era Paranavaí, há mais de 40 anos’’, comenta o escritor. Na época a autoridade mais notável era o delegado de polícia, que detinha todos os poderes. ‘‘Era um ditador plenipotenciário’’, lembra Furtado. Apesar do tema regional ‘‘A Posseira e o Doutor’’ tem um sentido universal, segundo seu autor. Os personagens que se movimentam em suas linhas são os mesmos encontrados em qualquer parte do mundo.
Afastado da política, depois de intensa atuação nos tempos da ditadura - tendo sido, inclusive, cassado em 1977 pelo presidente Ernesto Geisel - Alencar Furtado foi deputado estadual, deputado federal, ajudou a criar o MDB, e atuou como líder de oposição no Congresso Nacional.
‘‘Agora as coisas estão mais tranquilas’’, diz o safenado cidadão, avô de sete netos. Falar das crianças é o mesmo que se derreter de amor: ‘‘Elas são a sublimação da vida da gente’’, afirma com um sorriso beatífico. Apesar da paz que o rodeia, mantém-se atento ao mundo político, seus caminhos e descaminhos. ‘‘Temos que viver transformando e semeando questões irreversíveis’’, afirma. Esse é o dom da política, atualmente desaparecido. ‘‘Na luta que travei deixei essa semente’’, esclarece. O País de nossos dias está carente de batalhas, segundo o ex-político.‘‘Hoje precisava haver outra luta - a da democracia econômica, da justiça social. O maior exército de miseráveis das Américas é o do Brasil’’, escandaliza-se.
Ele critica a submissão do governo federal à política financeira internacional, que não leva em conta os ‘‘milhões de desempregados, de gente passando fome’’. Esses milhares de desafortunados e acuados formam um caldeirão de ódio e tensão que ‘‘favorece a movimentos mais graves’’, frisa. ‘‘Tem que haver um basta nisso.’’
A cultura é um dos caminhos que deveriam ser tomados pelo governo. Falta uma política cultural brasileira, como de resto em todo o Terceiro Mundo. ‘‘A política cultural terceiro mundista é importada para servir aos países de origem dela.’’ Daí que o Pentágono divulgou certa vez que não se precisa mais de ocupações militares, mas de cérebros ocupados, como lembra Furtado.
Para ele o livro é fundamental neste processo, e o escritor não pode perder o leme de sua escrita. ‘‘Cada um de nós precisa saber querer. Eu quero um País politicamente idôneo, profundamente fecundo e que todos os brasileiros sejam verdadeiramente cidadãos’’, encerra Alencar Furtado.
• A Posseira e o Doutor - romance de Alencar Furtado. Narrativa da ocupação do Noroeste do Paraná. Lançamento hoje, às 17h30, na Livraria Curitiba da Boca Maldita. Preço do livro: R$ 15,00.

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