Faltando ainda conferir quatro candidatos que entram na competição entre hoje e amanhã, o Festival de Cannes entra naquela fase derradeira dos clichês que a mídia gostaria de evitar. A história do filme ''definitivo'', ''reta final da competição'', etc. O fato é que até ontem havia um silêncio retumbante a respeito de favoritos, e este ano foi um ano de recato, sem escândalos de qualquer ordem, operacional, sexual ou político - a organização está impecável, os filmes estão quase todos pudicos e o affair Irã versus a animação ''Persepolis'' esfriou no dia seguinte. Ninguém até o momento se aventurou a fazer apostas sobre quem leva a Palma do sexagésimo aniversário.
Um ótimo filme alemão, ''The Edge of Heaven'', foi bem recebido e desde já se coloca em posição de destaque. O turco radicado na Alemanha, Fatih Akin, explora ao mesmo tempo com complexidade e desenvoltura todo o entorno político, cultural, racial e psicológico que divide ou aproxima diferentes culturais e gerações.
Já o sul-coreano ''Secret Su© nshine'', de Lee Chang-dong, discute mais com pretensão do que com resultados eficientes a religião como refúgio para a culpa, a dor e o desespero. No caso, aflições de uma viúva recente, e que logo em seguida também perde o filho pequeno em circunstâncias trágicas.
Entre as imagens preciosas deste festival, sem dúvida as da produção húngara ''The Man From London'' ocupam lugar de honra. Dirigido por Bela Tarr, nome pouco conhecido até mesmo no circuito de festivais mas considerado um mestre por muitos diretores, o filme é a adaptação de romance criminal homônimo e inédito de George Simenon. Rodado na ilha de Malta, o filme é um longo calvário expressionista, embora de rara beleza.
Ontem foi dia de relax para os críticos e de stress para a tietagem, com a pré-estréia mundial de ''Ocean's Thirteen'', terceira aventura daquele time de ladrões liderado por George Clooney. Novamente dirigido por Steven Soderberg, que alterna caríssimos folguedos de massa, como este, com peças de câmera, autorais e baratas, o filme repete sem qualquer problema a fórmula consagrada dos dois exemplares anteriores da franquia.
Aqui não interessa muito o desfecho, que todos na platéia sabem qual será, isto é, com resultado favorável aos requintados escroques. O que mantém o interesse, pela ordem, é como se faz a coisa, de que modo se comete o delito, a sofisticação da engrenagem do grande golpe que Clooney, Matt Damon, Brad Pitt, Andy Garcia, Elliot Gould e o resto da equipe preparam em cima do hotel-cassino de Al Pacino, a vítima da vez. Tudo aqui funciona como a mais perfeita engrenagem, caminho mais curto para se chegar ao paraíso do entretenimento.(C.E.L.J.)
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes

mockup