Alemanha conhece a obra de Lina Bo Bardi
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segunda-feira, 19 de julho de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 20 (AE) - A exposição "O Brasil da Arquiteta Lina Bo Bardi Uma Retrospectiva" chegou à Alemanha, após passar por 14 países. A mostra é composta por desenhos de Lina, maquetes de construções importantes, como o Sesc Pompéia, fotos e também cadeiras projetadas pela arquiteta. A retrospectiva fica na Galeria Aedes East, o mais importante local de exposições de arquitetura da cidade, no Hackesche Hfe, até o dia 8.
Lina Bo Bardi nasceu em Roma em 1914 e formou-se em arquitetura em plena 2.ª Guerra, período em que militou no Partido Comunista e se engajou na resistência contra o fascismo. Mas foi o Brasil que ela escolheu como pátria. Ela chegou ao País em 1947, acompanhando o marido Pietro Maria Bardi, que havia sido convidado por Assis Chateaubriand para criar o museu que viria a ser o Masp. Lina sempre dizia ter ficado encantada com a desenvoltura, a alegria que encontrou no Brasil, onde embarcou após os longos anos sombrios da 2.ª Guerra Mundial.
Mas uma das coisas que mais a fascinaram nesse novo país que se tornaria sua pátria por adoção foi o fato de que "aqui não havia ruínas". Tudo estava por ser construído e a arquiteta não pensou duas vezes antes de arregaçar as mangas e deixar suas contribuições espalhadas pelo País, com destaque para as obras construídas em Salvador e São Paulo. Muitos paulistas podem não saber, mas ela é a autora de dois dos mais importantes cartões-postais da cidade, como o prédio do Masp na Avenida Paulista, que tem como principal atrativo arquitetônico o vão livre de 75 metros - que durante muitos anos foi o maior do mundo.
Lina, no entanto, não tinha o menor orgulho desse recorde, consequência da exigência feita pelos doadores do terreno de que o prédio não poderia esconder o belvedere voltado para o centro e afirmava que nunca teria adotado uma solução tão cara se houvesse outra saída. Outra obra-prima projetada por Lina para São Paulo é a unidade do Sesc Pompéia. Nesse complexo cultural, fica evidente a multiplicidade da obra de Lina, que via a arquitetura não como algo técnico e segmentado.
Além de "arquiteto" (ela não utilizava a palavra no feminino nem gostava de trabalhar com moças, porque acredita que elas choram facilmente), ela também foi designer, cenógrafa e figurinista. No caso do Sesc ela não apenas concebeu o prédio como criou desde os pratos do restaurante, os móveis do teatro e do centro de convivência, até o uniforme dos funcionários.
Com um temperamento forte e um espírito extremamente crítico, Lina era afeita a bombásticas frases de efeito. E apesar de ter vivido por várias décadas em São Paulo (onde construiu para si uma maravilhosa casa de vidro sobre pilotis, cercada por 8 mil metros de Mata Atlântica no bairro do Morumbi) não perdia ocasião de dizer o que pensava dessa cidade desumana.
"Os outros lugares do Brasil têm uma conotação; São Paulo não tem conotação nenhuma, não tem cultura nenhuma", dizia. "Quando vejo São Paulo de avião, tenho a impressão de que é uma grande ossada; é a cidade campeã do mundo em autodestruição de sua história", afirmou em outra ocasião. Isso não a fazia desistir de chegar ao que julgava ser o objetivo de sua profissão: "Arquitetura é poesia com responsabilidade social. Se as coisas não dão certo é porque renunciamos a inventar uma saída", disse ela em entrevista concedida ao jornal "O Estado de S.Paulo", em 1989.
Como resumiu certa vez o respeitado crítico espanhol Josep Montaner. "Se a arquitetura racional embasava-se na repetição e nos protótipos, Lina Bo Bardi propôs introduzir sobre um suporte racional e funcional ingredientes poéticos, irracionais e irrepetíveis".


