Além das expectativas
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2002
André Bernardo<br> TV Press 
Além das expectativas
O cantor, apresentador e agora também ator Netinho de Paula não se mostra nem um pouco surpreso com o sucesso de ''Turma do Gueto'', da Record. Logo na estréia, o seriado duplicou a audiência da emissora nas noites de segunda, de 5 para 11 pontos, e ainda assumiu a vice-liderança do horário ao superar o até então imbatível programa ''Hebe'', do SBT, com 10. Por isso mesmo, ele não se arrepende do tempo que pelejou até emplacar o projeto. ''A tevê brasileira nunca retratou a população negra como de fato ela é. O padrão da Globo, por exemplo, é o europeu. Quase nenhum negro, só gente rica e que mora em casarões bonitos'', critica.
Mesmo assim, Netinho acredita que o sucesso de um seriado que mostra o dia-a-dia de uma escola de periferia e é protagonizado por atores negros pode encorajar as outras emissoras a investirem em projetos semelhantes. Como acredita também que a Record vai se animar em ampliar os 16 episódios iniciais para 48. E de pensar que a emissora só aprovou o projeto porque Netinho condicionou a renovação de seu contrato à realização do seriado. ''O programa não tem pretensão alguma. Se ele melhorar a inclusão de atores negros no mercado de trabalho, já estou satisfeito'', minimiza, sem disfarçar o orgulho.
Você esperava que ''Turma do Gueto'' duplicasse a audiência da Record nas noites de segunda?
A expectativa com o ibope sempre foi grande. Queria que o seriado desse, pelo menos, 10 pontos, o dobro da audiência anterior. Só assim, poderíamos estender o projeto de quatro meses para um ano. Tinha medo que, se o programa não desse audiência e fosse cancelado, os negros demorassem mais 50 anos para ganhar espaço na tevê brasileira.
Você acha que o exemplo do seriado vai ser seguido pelas demais emissoras?
Não quero delegar à dramaturgia uma responsabilidade que não é dela. A tevê tem é de entreter o telespectador e ponto final. Muitos autores, porém, alegam que não escrevem sobre negros porque não são negros ou porque não conhecem a periferia. Mesmo assim, quando eles querem, retratam imigrantes italianos com riqueza de detalhes. Não estou fazendo um seriado só para negros. O seriado é voltado para o povo brasileiro. Quero que o público de todas as raças se identifique com o que vê na televisão.
Que avaliação você faz das novelas da Globo quanto à inclusão de negros em suas tramas?
Na periferia, as crianças negras só tem três referências: a música, o esporte e o tráfico. Quero estabelecer uma quarta referência: a dramaturgia. É incrível que, em um país tão mestiço quanto o nosso, negro só faça papel de escravo ou empregado em novelas. Ninguém consegue escrever papéis relevantes para os negros na televisão. A emissora nº 1 do país, em termos de teledramaturgia, ignora nossa cultura e miscigenação. Quando o turista vê as novelas da Globo no exterior e, em seguida, vem ao Brasil, até estranha.
Logo na estréia, o seriado mostrou tiros, sangue e morte em profusão. Em algum momento, você pensou em dosar a violência para não chocar o telespectador?
Não dá para falar da periferia e não abordar, por exemplo, o tráfico de drogas. Mas não vamos focar só o tráfico de drogas. Não queremos mostrar violência gratuita, mas apresentar as suas causas. Nossos maiores críticos são as pessoas que vivem na periferia. Se o seriado não corresponder à realidade, eles vão perceber. Por isso, cobro o máximo possível de realismo. Até no texto do seriado. Não quero ''decoreba''. Quero realismo. Sempre que posso, gosto de inserir gírias da periferia.
Como você acha que está se saindo como ator?
Pessoalmente, não encontrei maiores dificuldades. O elenco teve aulas de interpretação, fez leituras de textos e trocou muitas idéias para não desapontar ninguém. Mas retratar a periferia é mostrar minha vida e as minhas origens. Já sofri preconceito racial também. Quando trabalhava em banco, atendia a clientes ricos que viviam me humilhando. Se eu tivesse tido uma atitude de revolta, não teria conseguido tudo o que consegui. Quanto à minha atuação, sou suspeito para falar. Vocês da imprensa é que devem dizer como estou me saindo...


