Além das entrelinhas
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Luana Borges<br>TV Press 
Com o passar do tempo, fica mais fácil identificar o autor de um folhetim só de assistir aos capítulos. Principalmente porque, vez ou outra, há elementos comuns ou bem parecidos entre a trama atual e as passadas. Silvio de Abreu e Marcílio Moraes, por exemplo, gostam de apostar no gênero policial. Gilberto Braga e Manoel Carlos costumam investir em tramas que envolvem a classe média alta. Já Tiago Santiago e Antônio Calmon exploram bastante a ficção científica. "O público sabe o tipo de narrativa que pode esperar de cada escritor, identificando-se mais com um ou com outro", analisa Marcílio, que depois de uma longa carreira na Globo foi para a Record, onde assinou tramas como "Ribeirão do Tempo" e "Vidas Opostas", entre outras, às quais emprega um cunho contestador. "Quero levar o espectador a pensar no que está vendo e não apenas a embarcar na fantasia que apresento", acrescenta.
Para alguns autores, a assinatura própria ajuda a estabelecer maior identificação com quem assiste à novela. Mas, para outros, a importância dessa espécie de marca registrada é secundária. "É normal que o telespectador goste mais ou menos de determinado autor. Mas, se a novela for boa, com bons personagens e uma trama bem amarrada e bem contada, ele vai acompanhar do mesmo jeito", defende Silvio de Abreu.
Sempre lembrado por sua comédia escrachada, Miguel Falabella assume ter uma linguagem facilmente identificável. "Meus diálogos e minha visão de mundo são muito reconhecíveis. Eu gosto dos excluídos", frisa o autor de "Pé na Cova", seriado que estreia no dia 24, na Globo. Já Gloria Perez, em seus últimos trabalhos, tem colocado em evidência culturas orientais relativamente exóticas. Sem falar no investimento que faz em merchandising social, uma forte característica em suas tramas. "Acredito que o folhetim possa ir além do entretenimento e ter sua função social", opina a autora de "Salve Jorge".
A atual novela das nove, aliás, apresenta uma linha de raciocínio bastante semelhante com as três anteriores assinadas por Gloria: "Caminho das Índias", de 2009, "América", de 2005, e "O Clone", de 2001. Coincidentemente ou não , os índices de audiência dos folhetins, de uma maneira geral, vêm declinando a cada vez. Claro que, hoje em dia, eles "competem" com internet, programação de canais fechados e várias outras formas de entretenimento. Mas alguns autores defendem que, por mais que tenham suas respectivas marcas registradas, a busca por não se repetir em suas novelas pode ser um atrativo para o público. Elizabeth Jhin, que costuma beber da fonte do espiritismo para criar suas obras, acredita na ideia. "Usando elementos do mesmo universo, o autor precisa inovar na trama, criando expectativas no espectador", assinala a autora de "Amor Eterno Amor" e "Escrito nas Estrelas", entre outras.
Autor da trilogia de "Os Mutantes", da Record, e atualmente contratado pelo SBT, Tiago Santiago se preocupa com a renovação de suas histórias. Segundo ele, é preciso ter cuidado ao criar tramas de universos semelhantes. "Quero fazer outra novela com ficção científica, mas tenho de tomar cuidado para não repetir a novela dos 'Mutantes'. Ou outra novela de vampiros, mas com cuidado para não repetir 'Vamp'", pondera, citando o folhetim de Antônio Calmon do qual foi colaborador, exibido pela Globo entre 1991 e 1992.


