É com um olhar distante e um semblante pensativo que Bruno Gagliasso busca palavras para explicar o porquê de ter esperado mais de 20 anos para aceitar dar vida a seu primeiro protagonista herói na televisão. "Ao longo desses anos, eu recusei muitos convites para interpretar mocinhos porque preciso sentir tesão pela história do personagem. E, para despertar o meu interesse, o papel tem de sair do óbvio", considera.
No ar na pele do íntegro Franz de "Joia Rara", da Globo, o ator faz questão de frisar que seu personagem não segue os parâmetros do mocinho romântico. O que era de se esperar, já que, mesmo preenchendo todos os requisitos para se encaixar no perfil de galã, Bruno diz que nunca usou sua beleza estética como um alicerce na carreira. "Não me preocupo em ser reconhecido como galã. Minha vaidade é outra, quero entregar um trabalho decente", garante.
A atração de Bruno por personagens complexos é declarada. Não é à toa que, em sua trajetória na tevê, predominam papéis de composição. Assim como muitos, o ator carioca entrou para o universo da teledramaturgia fazendo figuração em novelas. Mas demonstrou ter algo a mais quando foi escalado, em 2000, para a primeira versão tupiniquim de "Chiquititas", do SBT.
Bruno se destacou na novela infantil e logo assinou com a Globo, estreando na emissora menos de um ano depois, com o folhetim "As Filhas da Mãe". Hoje, aos 31 anos, ele carrega em seu currículo uma gama diversificada de personagens que vai do homossexual Júnior ("América", de 2005), passando pelo esquizofrênico Tarso ("Caminho das Índias", de 2009), e até um psicopata, o Timóteo ("Cordel Encantado", de 2011). "Eu sinto que fiz o caminho inverso na teledramaturgia. A maioria dos atores só tem a chance de dar vida a personagens de composição como esses quando já tem toda uma trajetória nas costas", analisa.

As gravações de "Joia Rara" contaram com uma temporada de, aproximadamente, um mês no Nepal. Esse período ajudou você na composição do personagem?
Sim. E muito. Porque lá eu pude observar de perto todo esse universo que envolve a trama do folhetim. Além de ter gravado cenas muito fortes, que me exigiram uma entrega total ao Franz. A pobreza do país também me comoveu. Apesar de viver na miséria, o povo do Nepal é extremamente pacífico. Uma contradição surpreendente, no meu ponto de vista. Também usei a pobreza que vi por lá como referência para a novela, comparando com a situação precária que os operários viviam na década de 1940 no Brasil. Isso me ajudou a entender melhor suas reivindicações.

Este é seu quarto trabalho sob a direção de Amora Mautner. Como tem sido essa parceira?
A Amora é uma pessoa em quem eu confio completamente quando se trata de teledramaturgia. Porque ela, assim como eu, sai do lugar-comum. Não gosta do óbvio. Toda a produção de "Joia Rara" é digna de cinema, desde sua trilha sonora até a fotografia, as atuações e as sequências da novela. E isso não é apenas aproximar a linguagem do cinema à da televisão. Isso é transformar a arte em algo acessível para grande parte da população brasileira. Foi por ser um convite dela e das autoras Duca Rachid e Thelma Guedes, é claro, que eu aceitei interpretar um mocinho na televisão. Coisa que eu não me sentia seguro para fazer até então.

Por quê?
Em geral, o mocinho de uma novela, ainda mais sendo do horário das seis, é muito bobão. Um personagem monocromático, com pouca humanidade. Mas, quando a Amora me convidou, eu sabia que ela não me daria um papel tão óbvio assim. O convite foi feito quando ainda estávamos gravando "Cordel Encantado", em 2011. E eu aceitei na hora porque confio nela. E eu não me arrependo de ter demorado tanto tempo para aceitar encarnar um herói romântico assim. Primeiro, porque eu esperava pelo papel certo, como esse, em que eu pudesse trabalhar o personagem além dos limites do mocinho clássico. E, depois, porque acredito que todos os meus papéis menos ortodoxos, de alguma maneira, me prepararam para viver o Franz. Me deram uma base mais sólida.

Esse tipo de personagem de composição se tornou cada vez mais constante em sua trajetória. Como você encara isso?
Eu sou um grande questionador da vida. Gosto de questionar e colocar perguntas em pauta. E acredito que essa seja uma das funções do ator. Trazer à tona assuntos que a sociedade precisa discutir porque desconhece ou por ser um tabu. E me deixa muito satisfeito ver que muitos personagens que interpretei tiveram esse viés social.

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