É através da nossa percepção que podemos atribuir significados às coisas do mundo, aos fenômenos com os quais nos relacionamos no tempo e no espaço. Sejam eles objetos, sensações, intuições ou mesmo os mais descabidos delírios da imaginação. Significados dizem respeito tanto à aparência quanto à essência da própria coisa das quais nos referimos, como coisa que se nomeia. Muito embora aparência e essência, no nosso caso, possam até ser confundidas ou transformadas uma na outra.
As aparências aparentam, já disse o poeta. Elas enganam, já cantava Elis Regina. As aparências podem nos levar à percepção falsa da essência de algo que imaginávamos real. Cildo Meireles tem um trabalho exemplar neste sentido. Sua obra, ''Ku Kka Ka Kka'', de 1999, é uma instalação com duas estufas de vidro fechadas, de aparência exatamente igual, contendo fezes e flores em ambas. A diferença não se revela pela percepção visual, mas pelo auxílio de outras percepções, como a olfativa, uma vez que é preciso entrar dentro das vitrines para compreender o trabalho. Enquanto uma contém flores verdadeiras e fezes artificiais, a outra contém flores artificiais e fezes naturais. Neste caso, a simples observação do fenômeno não é suficiente para se tirar conclusões.
O engano da percepção pode estar deslocado do tempo, do espaço e até da própria crença que nos havia permitido entender certos fatos até então, nos revelando outras questões que jamais nos seriam permitidas sem o incômodo da dúvida. ''''; O que será isto diante dos meus olhos? '''';, deve ter se perguntado a Sra. Dreier, quando, em 1921, encomendou ao inventivo artista francês, Marcel Duchamp - que fazia um estrondoso sucesso nos EUA à época - um trabalho artístico, e este apareceu com uma gaiola de pássaros cheia de cubos brancos de mármore, com um termômetro e um osso dentro, intitulado ''Por quê não espirrar Rrose Selavy?''
Certamente ela não conseguia supor que diante de seus olhos havia uma trama de significados que continua a perturbar a história da arte até hoje; os cubos brancos de mármore se apresentam como a falsa promessa de doçura, dada a referência a cubos de açúcar, embora a densidade e o peso sejam outros, inesperados. O termômetro, um instrumento de precisão para medir temperatura, não é um elemento convencional às artes visuais, como elemento estético a ser apreciado pela sua beleza. O osso pode ser a metáfora de um vôo aprisionado. O próprio formato da peça faz referência ao cubismo (movimento artístico dominante à época). Além do próprio título, que dá margens à idéia de um certo gesto gratuito, mas ao mesmo tempo prazeroso. ''Eros, C'est la vie'';. Duchamp chegava ao cúmulo de destruir o original de sua obra, substituindo-a por réplicas, para que o sentido e não o objeto fosse resguardado. A arte enquanto fenômeno da percepção visual, ''retiniana'';, estava definitivamente comprometida.
Já gozando da abertura proporcionada pela arte contemporânea, Ana Mendieta fazia verdadeiros rituais de reconexão entre corpo e espírito de suas silhuetas vazias inscritas na terra, explorando a idéia de ausência que faz gerar uma outra presença, como significado artístico. Assim, a essência de seu trabalho poderia alcançar um sentido que fosse além da percepção visual imediata.
Pensando bem, por quê, não?
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