Arquivo FolhaDomingos Pellegrini lançou ‘‘Questão de Honra’’ pela Editora Moderna. Em 1996, livro recebeu uma edição restrita dentro da coleção ‘‘Farol do Saber’’ da Prefeitura Municipal de CuritibaAlém da vitória,
além da derrota
Novo romance de Domingos Pellegrini visita a Guerra do Paraguai e mostra a batalha pessoal de dois personagens
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Guerra é um rosto sem forma que possui apenas uma única face, o ódio. A Guerra do Paraguai, iniciada 1864, não fugiu a esta regra. Após o exército brasileiro abandonar o Paraguai, em 1870, o país contava com uma população de duzentos e vinte mil habitantes. Antes da guerra eram dois milhões e duzentos mil habitantes.
Esse polêmico episódio da História do Brasil é visitado ficcionalmente pelo escritor londrinense Domingos Pellegrini em seu novo romance, ‘‘Questão de Honra’’, lançado pela Editora Moderna. Trata-se de um romance intertextual que dialoga com ‘‘A Retirada da Laguna’’, obra de Visconde de Taunay (1843 - 1899), um clássico da literatura brasileira.
Em ‘‘A Retirada da Laguna’’ Visconde de Taunay (Alfredo D’Escragnolle Taunay) registra seu testemunho como integrante do exército que atravessou o Mato Grosso e invadiu o Paraguai em situações adversas. Publicado originalmente em 1871, a obra foi escrita em francês e posteriormente traduzida, em 1874, para a língua portuguesa.
Partindo de ‘‘A Retirada da Laguna’’ Domingos Pellegrini, em ‘‘Questão de Honra’’, oferece uma nova visão da guerra. Narrado pelo personagem Rufino, soldado que participou da batalha ao lado de Taunay, o romance troca o heroísmo pelo humanismo.
‘‘Questão de Honra’’ é pontuado por uma ambígua relação entre Rufino e Taunay. Enquanto Taunay acredita na pátria, no exército, no império, Rufino acredita apenas que ‘‘o homem é um bicho ruim’’. Rufino, ao mesmo tempo que admira o ímpeto de Taunay, o odeia por ter roubado o amor de sua vida, Maria. Essa dúbia relação entre dois homens vivendo uma guerra, acompanhada pelo cotidiano pela sobrevivência, leva a narrativa à uma confluência moral, a dignidade.
‘‘Questão de Honra’’ possui estrutura semelhante ao romance anterior de Pellegrini, ‘‘Terra-Vermelha’’, publicado no ano passado também pela Editora Moderna. Embora trilhem caminhos diferentes, o passado é componente determinante nas duas obras. Em ‘‘Questão de Honra’’ o personagem principal, Rufino, no final da vida, doente numa cama, narra, numa espécie de acerto de contas com o passado, os fatos vividos durante e após a guerra. Em ‘‘Terra-Vermelha’’ o personagem principal, José, no fim da vida numa cama de hospital, repassa todo seu passado como pioneiro do norte do Paraná.
Embora ‘‘Questão de Honra’’ repouse seu conteúdo em um diálogo com a obra de Taunay, mais propriamente sobre a guerra, o maior sentido da obra de Pellegrini reside numa palavra que comporta montanhas de sentido: honra. Não é por acaso que a palavra está presente no título. Honra no sentido de dignidade, da própria dignidade interior. Rufino, realiza seu relato para curar as feridas de sua consciência. Passa sua existência pós-guerra com uma lança cravada no peito, a lança da consciência ao agir em nome de um ressentimento. No caso, devido ao amor de uma mulher. Seu relato, já no fim da vida, é a maneira encontrada para arrancar a lança do peito e morrer em paz.
O universo apresentado por Pellegrini supera o contexto milenar da paixão desvirtuando homens. Contrapõe pontos de vista de um mesmo fato, a guerra. Para cada herói coroado há centenas de fracassados enterrados em vala comum. Para cada herói nomeado, há milhares de peões construindo nações. Faz com que o sentido existencial de ambos os pólos se encontre num território ideologicamente impossível, mas sentimentalmente provável.
- ‘‘Questão de Honra’’ de Domingos Pellegrini, Editora Moderna, 144 páginas, R$ 18,00.

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