Falecida há mais de 20 anos, a Rainha do Mistério, Agatha Christie, continua um fenômeno editorial. Autora de 87 livros, a inglesa Agatha Mary Clarissa Miller só perde em vendagens para William Shakespeare e a Bíblia. Traduzidos para 45 idiomas, seus livros já ultrapassaram a vendagem de 2,6 bilhões de exemplares. A cada ano são vendidos cerca de 25 milhões de livros em todo o mundo. Depois de Lucrécia Bórgia, nenhuma outra mulher ficou tão famosa com assassinatos, sumiços e envenenamentos quanto a autora de ‘‘Testemunha de Acusação’’ e ‘‘Assassinato no Expresso do Oriente’’.
A julgar pelo recente lançamento da Record, Agatha ainda tem muito o que oferecer para o público. A editora acaba de publicar duas obras inéditas: ‘‘Enquanto Houver Luz’’ e ‘‘Café Preto’’. O primeiro é uma coletânea de nove contos, publicados em obscuras revistas policiais dos anos 20. O segundo é uma antiga peça teatral, escrita em 1930 e transformada em romance pelo biógrafo da escritora, Charles Osborne. ‘‘Em Café Preto’’, Hercule Poirot, o excêntrico detetive belga criado pela autora em 1926, é chamado às pressas por um cientista inglês temeroso de que a fórmula secreta que está desenvolvendo seja roubada. Poirot atende ao chamado, mas chega tarde demais: ele encontra o cientista morto e a fórmula desaparecida.
O que mais chama a atenção em ‘‘Enquanto Houver Luz’’ é a variedade de estilos. Desde o romântico ‘‘Paredes que Atormentam’’ ao sobrenatural ‘‘A Casa dos Sonhos’’, Agatha demonstra firmeza em diferentes gêneros. O mais interessante deles, porém, é ‘‘Tensão e Morte’’. Publicado originalmente em 1927, ‘‘Tensão e Morte’’ foi escrito em 3 de dezembro de 1926, exatamente no período em que Agatha Christie, então com 36 anos, desapareceu misteriosamente por 11 dias. Na ocasião, seu carro foi abandonado e só depois da notícia ser divulgada pela imprensa é que os funcionários de um hotel perceberam que a hóspede registrada como Theresa Neele era, na verdade, a Dama do Mistério.
‘‘Café Preto’’ e ‘‘Enquanto Houver Luz’’, porém, não oferecem maiores arroubos de genialidade. Desde que estreou na literatura em 1926, com ‘‘O Assassinato de Roger Ackroyd’’, pouca coisa mudou no estilo adotado por Agatha Christie. A Rainha do Mistério nunca se preocupou, por exemplo, em romper com as convenções do gênero. Havia sempre o crime perfeito desvendado pelo brilhante detetive numa biblioteca grande o bastante para reunir todos os suspeitos. O pernóstico Hercule Poirot, protagonista de 33 dos livros escritos pela autora, deixava a violência a cargo dos americanos Raymond Chandler e Dashiell Hammett. Para ele, bastava exercitar as mundialmente famosas células cinzentas.

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