Além da vida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de dezembro de 1998
André Bernardo Cult Press 
Falecida há mais de 20 anos, a Rainha do Mistério, Agatha Christie, continua um fenômeno editorial. Autora de 87 livros, a inglesa Agatha Mary Clarissa Miller só perde em vendagens para William Shakespeare e a Bíblia. Traduzidos para 45 idiomas, seus livros já ultrapassaram a vendagem de 2,6 bilhões de exemplares. A cada ano são vendidos cerca de 25 milhões de livros em todo o mundo. Depois de Lucrécia Bórgia, nenhuma outra mulher ficou tão famosa com assassinatos, sumiços e envenenamentos quanto a autora de Testemunha de Acusação e Assassinato no Expresso do Oriente.
A julgar pelo recente lançamento da Record, Agatha ainda tem muito o que oferecer para o público. A editora acaba de publicar duas obras inéditas: Enquanto Houver Luz e Café Preto. O primeiro é uma coletânea de nove contos, publicados em obscuras revistas policiais dos anos 20. O segundo é uma antiga peça teatral, escrita em 1930 e transformada em romance pelo biógrafo da escritora, Charles Osborne. Em Café Preto, Hercule Poirot, o excêntrico detetive belga criado pela autora em 1926, é chamado às pressas por um cientista inglês temeroso de que a fórmula secreta que está desenvolvendo seja roubada. Poirot atende ao chamado, mas chega tarde demais: ele encontra o cientista morto e a fórmula desaparecida.
O que mais chama a atenção em Enquanto Houver Luz é a variedade de estilos. Desde o romântico Paredes que Atormentam ao sobrenatural A Casa dos Sonhos, Agatha demonstra firmeza em diferentes gêneros. O mais interessante deles, porém, é Tensão e Morte. Publicado originalmente em 1927, Tensão e Morte foi escrito em 3 de dezembro de 1926, exatamente no período em que Agatha Christie, então com 36 anos, desapareceu misteriosamente por 11 dias. Na ocasião, seu carro foi abandonado e só depois da notícia ser divulgada pela imprensa é que os funcionários de um hotel perceberam que a hóspede registrada como Theresa Neele era, na verdade, a Dama do Mistério.
Café Preto e Enquanto Houver Luz, porém, não oferecem maiores arroubos de genialidade. Desde que estreou na literatura em 1926, com O Assassinato de Roger Ackroyd, pouca coisa mudou no estilo adotado por Agatha Christie. A Rainha do Mistério nunca se preocupou, por exemplo, em romper com as convenções do gênero. Havia sempre o crime perfeito desvendado pelo brilhante detetive numa biblioteca grande o bastante para reunir todos os suspeitos. O pernóstico Hercule Poirot, protagonista de 33 dos livros escritos pela autora, deixava a violência a cargo dos americanos Raymond Chandler e Dashiell Hammett. Para ele, bastava exercitar as mundialmente famosas células cinzentas.


