"Além da Linha D'água" quer eliminar fronteiras culturais
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de setembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 09 (AE) - Mesmo emocionante, deslumbrante em alguns momentos, o espetáculo "Além da Linha dágua" não consegue escapar de certo tom paternalista explícito já no texto do programa: propõe-se a mostrar "a um público confortavelmente instalado na linha litorânea" a "originalidade da cultura e a profundidade de sentimentos" de nordestinos de Sergipe (Grupo Imbuaça de Teatro), Pernambuco (Coral Aboios de Serrita) e Bahia (Coral da Comunidade de Lagoa da Camisa e Coral da Comunidade de Valente).
Pressupõe que a "linha litorânea" - trata-se de uma figura de linguagem e, como tal, permite situar o teatro do Sesc Pompéia na fronteira interna da linha litorânea - desconheça outros brasis que não o seu. É tese tão antiga quanto inegável, que vem sendo abordada ao longo dos séculos, em todas as formas de arte, de maneira mais bem-sucedida ou menos. Há 20 anos, Maurício Tapajós e Aldir Blanc compuseram o samba "Querelas do Brasil", com versos da mesma queixa, ainda mais abrangente: "O Brazil não conhece o Brasil", escreveu Aldir Blanc, desenhando a questão numa frase só.
Na visão de Aldir, a população divide-se entre os que se acham no Brazil (não são necessariamente os ricos, os donos de ações e carros importados) e os que se sabem (ou nem precisam saber) no Brasil: tapuias, cearenses, nisseis, gaúchos, potiguares, etc. O espetáculo de Ivaldo Bertazzo propõe divisão de outro mérito - os da linha dágua e os de aquém dela. O grande mérito humanístico do espetáculo é propor o encontro de todos, além da arrebentação.
Para lançar mão de um método, para ser esquemático como o espetáculo é esquemático: convivem na cena o aboio e a música eletrônica, os próximos e os distantes da metafórica paisagem litorânea. No espaço idealizado, fundem-se as barreiras. Marília Pêra deita-se numa rede indígena nordestina e canta (em seu melhor momento) uma canção, se o termo se emprega, atonal. Convive o que Aldir Blanc chama de Brazil - o produtor cultural, por exemplo, que abre mão de seu sotaque em favor de uma linguagem que acredita mais evoluída - e o Brasil - o canto agreste do boiadeiro, das rodas dos cocos.
Só que, para que tal comunhão se dê, é preciso acertar alguns detalhes e a produção do espetáculo reproduz o modelo que denuncia: no ensaio, uma assistente do diretor ensinava às mulheres baianas da comunidade de Lagoa da Camisa que era necessário adotar um comportamento condizente com a solenidade do teatro. "Não é possível que cada uma se sente de uma forma"
advertia. "Estamos num teatro: sentem-se todas desta maneira, não daquela", dirigia. Em outras palavras, para que se chegue além da linha dágua é necessário que seja adotado um padrão.
O padrão da comunidade de Lagoa da Camisa é diferente daquele do teatro. A maneira como eles se mostram é irreproduzível num palco italiano - talvez o fosse numa arena. Eles cantam em círculo, no centro da roda de espectadores. Não há linha de limite entre eles e os espectadores - eles mostraram isso, no meio da semana, ao cantar na área de convivência do mesmo Sesc Pompéia: os que ali estavam formaram naturalmente a roda para ouvir os cantores e músicos, formados em roda, dançando (como não dançaram no palco), gesticulando (como não gesticularam no palco), improvisando (como não improvisaram no palco). O público participou, batendo palmas ao ritmo marcado pelo pandeiro, como não havia participado no teatro.
A interferência da direção do espetáculo é inevitável, nem por isso menos predadora. A cada tolher de gesto, vão-se séculos de cultura.
É necessário frisar, neste momento, que não vai aqui a defesa do imobilismo, da rigorosa não-interferência. O teatro de Antônio Nóbrega, para ficar num exemplo muito próximo e conhecido, é menos ambicioso do que o de Ivaldo Bertazzo e consegue transportar toda a gestualística, todo o rigor instrumental, todo o sotaque para a cena podando o mínimo possível de cada rama. Nóbrega é menos agente externo do que tradutor preocupado com seu objeto.
O sexteto feminino Comadre Florzinha, integrado por seis jovens mulheres, cinco delas nordestinas, uma paulistana, acaba de lançar um disco (gravadora CPC-Umes) com cocos, cantorias, xotes, tambores de crioula, etc., alguns de domínio público, outros compostos pelas integrantes ou por autores nordestinos contemporâneos, como Tom Zé. São vozes agrestes, que soam como as das mulheres da comunidade de Lagoa da Camisa. E não há como distinguir entre a composição moderna e a de domínio público - por sinal, uma das de domínio público, um coco alagoano recolhido por Mestra Virgínia Moraes, reclama assim: "Essa roda é nova/ Que vem de Sergipe/ Sapato americano/ Cabelo a pirulito/ Cabelo a pirulito/ Sapato americano/ Esa roda é nova/ É de sergipano/ Lê, lê, ô, saudade/ Lê, lê, ô, saudade."
O Panorama Percussivo Mundial - Percpan, festival de percussão realizado anualmente, há seis anos, em Salvador, reunindo tambores primitivos e contemporâneos do mundo inteiro, e de todos os interiores brasileiros, propõe o convívio gentil das diversas culturas com o mínimo possível de inteferência (só o deslocamento já é uma interferência). Quer que, pela proximidade, elas encontrem a linguagem comum, o pulso comum do tambor, o toque mais primitivo, essencial, partindo do pressuposto de que existe uma linguagem comum à espécie humana. Tem conseguido, em espetáculos emocionantes, estabelecer a conexão, evidenciar o elo perdido. Como se dissesse: "O rio corre para o mar, mas podemos nos antecipar e marcar encontro à margem do rio." Ao espetáculo de Bertazzo sobra pretensão e falta ousadia na dimensão utópica.
Serviço - Além da Linha dágua. Direção de Ivaldo Bertazzo. Duração: 1h20. De quarta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 20,00. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, em São Paulo, tel. (11) 3871-7700. Até 19/9. Realização: Sebrae, Comunidade Solidária e Sudene. Patrocínio: Petrobrás e Natura. Apoio: Ministério da Cultura, Varig, George V Residence, Arisco, Jacques Janine, Benfica Turismo e Instituto de Artesanato Visconde de Mauá/BA


