ALÉM DA ESCOLA - Frente a frente com as desigualdades
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terça-feira, 13 de setembro de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Mais do que o melhor livro didático, conhecer as desigualdades sociais e urbanas de perto impressiona e pode provocar reflexões mais profundas. Dentro dessa estratégia de ensino e conscientização, cerca de 80 alunos do 1º ano do ensino médio do Colégio Marista participaram de um passeio de campo, na semana passada, em que a paisagem caótica presenciada foge da realidade mais comum para eles. A atividade faz parte do projeto interdisciplinar de Geografia. O tópico é urbanização, mas a lição promete ser para a vida toda.
Na primeira parte do roteiro, os alunos foram conhecer um local de grande área aberta, na Região Norte, na Avenida Sílvio Barros, onde é possível perceber o processo de urbanização de Londrina. De um lado, o centro desenvolvido, moderno; de outro, o bairro dos Cinco Conjuntos, em área periférica, que muitos pela primeira vez estavam vendo. Nas explicações do professor de Geografia, Otávio Ferreira Júnior, 35 anos, informações atualizadas sobre o processo de especulação imobiliária em Londrina, o histórico da formação do bairro de população operária que hoje abriga cerca de 150 mil pessoas e a desigualdade social que muitas vezes reforça o preconceito aos moradores do local. ''Londrina tem muitos vazios urbanos resultado de uma falta de uma urbanização organizada. A cidade só foi ter o seu plano diretor a partir de 1984; até então crescia ao seu bel-prazer'', afirmou o professor.
No meio dos questionamento dos alunos, a oportunidade para também falar sobre o valor da terra e do quanto no processo histórico-social ela foi se transformando em uma ''mercadoria'' embora seja um recurso natural que não possa ser reproduzido e devesse ter o seu valor agregado à sua produtividade.
Depois, o próximo destino do grupo foi a Vila Marízia, uma área bastante carente no centro de Londrina. O uniforme branco, os tênis e bonés de marca e as máquinas fotográficas digitais de última geração dos alunos inevitavelmente destoavam do cenário repleto de casas precárias, algumas montadas até com restos de outdoor. Atentos, os alunos observavam com atenção as explicações do professor sobre o agonizante córrego Bom Retiro que corta o local e resiste no meio de entulhos e na falta da mata ciliar que deveria proteger as suas margens. Outra surpresa foi conhecer a barraca na beira da estrada que vende minhocas para servir de isca para os pescadores que passam no local. A descoberta acabou virando inspiração para falar sobre o trabalho informal e as estratégias de sobrevivência que milhares de brasileiros desenvolvem diariamente. ''Isso aqui não é imagem congelada. Tem cheiro, sujeira, vida e movimento. Um retrato dos nossos problemas sociais'', comentou Júnior. No debate com os alunos, o reforço do professor que por mais valores cristãos e estrutura familiar que essas pessoas possam ter, não há como ficarem imunes ao abandono social e a sedução do consumismo que podem gerar a violência.
A última parada foi o aterro sanitário de Londrina. A imensa quantidade de lixo se degradando a céu aberto o aterro recebe 380 toneladas de lixo doméstico por dia e o cheiro forte foram as primeiras impressões a chocar e a incomodar. Na conversa com o professor, a verificação prática do que pode resultar um crescimento populacional desordenado aliado a um consumo de embalagens que degradam o meio ambiente. Saber que a maior parte do que viram poderia ser reciclado também mexeu com o conceito que faziam do problema.
Gabriel Sitta, 15 anos, mesmo incomodado com o cheiro desagradável do local, disse que aprovou a experiência. ''Não tinha a mínima idéia dessa realidade
e acho que os políticos e nós também deveríamos pensar mais nas questões ambientais. A partir de agora pretendo separar o lixo reciclável, mas sei que a preguiça é o meu pior inimigo'', afirmou o estudante. Letícia Barbosa, 15 anos, também aprovou a iniciativa da escola. ''O que vi é muito diferente da minha realidade e não imaginava que o problema ambiental fosse tão grave. Também me impressionei com a venda de minhocas. É absurdo que alguém tenha que sobreviver com isso. Depois de hoje, a gente passa a se colocar no lugar dessas pessoas'', disse.
No final, o professor resumiu o que espera através do projeto: ''Cultura é quando a informação se transforma em ação''.


