Aleijadinho sob suspeita
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quarta-feira, 30 de abril de 2003
Jotabê Medeiros<br> Agência Estado 
São Paulo - É mais ou menos como se algum especialista olhasse para o teto da Capela Sistina e dissesse: aquilo ali está meio tortinho, não foi o Michelangelo. Foi um dos seus auxiliares, possivelmente um dos menos talentosos.
Um grupo de pesquisadores fez isso em relação ao mais afamado artista brasileiro, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), no livro ''O Aleijadinho e Sua Oficina'' (Editora Capivara), um trabalho de catalogação da obra do escultor. Os três pesquisadores são a historiadora Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, o restaurador Antônio Fernando Batista dos Santos e o estudioso Olinto Rodrigues dos Santos Filho, todos ligados ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sua tese estabelece, entre outras coisas, que os Passos da Ceia, um dos maiores sítios escultóricos do artista, em Congonhas (MG, tombado pela Unesco em 1985), só tem um terço de obras do Aleijadinho. O restante, cerca de 20 imagens, é trabalho ''exclusivo'' de auxiliares, alguns bem toscos.
Não foi só em Congonhas que as obras-mestras do escultor foram questionadas. São centenas de casos. O governo de São Paulo, por exemplo, possui no Palácio dos Bandeirantes uma imagem de S. José de Botas que, segundo o estudo, ''não revela aquela beleza de movimentos da obra do mestre''. Obras de coleções famosas, como as de Leda Nascimento Brito e Mário e Beatriz Pimenta Camargo, entraram no rol.
Museus de arte sacra do Brasil todo possuem imagens cuja nova análise de autoria derruba por terra 50 anos de laudos de experts - gente como o arquiteto Lúcio Costa, o escritor Mário de Andrade, o museólogo francês Germain Bazin e o pioneiro do patrimônio histórico brasileiro Rodrigo Melo de Andrade Franco.
A tese contrariou interesses diversos. Atendendo a pedido de um colecionador injuriado, um juiz da 4 Vara Cível da capital mandou apreender a edição integral do livro. O pedido de recolhimento dos 3,2 mil exemplares resultou em um mandado de busca e apreensão. Ontem, a Justiça reiterou a decisão de manter os livros fora de circulação. A medida cautelar alega ''receio de dano irreparável'' por causa de um ''suposto equívoco de atribuição'' emitido ''sem fundamentação científica''.
As partes envolvidas, autores e reclamante, não podem falar sobre o caso, porque o processo é sigiloso. A edição do livro é da editora Capivara, que pertence a Bia e Pedro Corrêa do Lago, ele presidente da Biblioteca Nacional - órgão do Ministério da Cultura, assim como o Iphan.
''De fato houve uma apreensão, a pedido de um investidor em obras de arte, e o processo está correndo sob segredo de Justiça; eu não posso fazer nenhum comentário'', disse a editora Bia Corrêa do Lago. ''O que nós detectamos é que fazia grande falta no mercado editorial um trabalho de referência padrão sobre a obra devocional do Aleijadinho, um dos maiores artistas do barroco brasileiro'', afirmou, sobre as motivações que levaram à publicação.
A ''orelha'' do livro diz que a pesquisa é fruto de ''um consenso dos destacados especialistas do Iphan envolvidos há décadas com a obra do artista'' e foi isso - a relação com um órgão oficial do patrimônio - que irritou mais o lobby do Aleijadinho. Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira é membro do Conselho Consultivo do Iphan.
Mesmo sem conhecer a obra, diversos museus e colecionadores privados estão questionando a tese dos autores do livro, como o Museu Aleijadinho e o Museu de Arte Sacra de Mariana. Segundo o historiador Dalton Sala, esse é ''o'' caso da história da arte no Brasil. Sala é autor de uma tese de doutorado muito discutida, na qual defendeu que o Aleijadinho é um herói cultural criado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. Sua ''beatificação'' cerceia a real discussão do seu valor.
''O problema não é questionar, mas é que o livro não explica por que essas contestações, no que estão fundamentadas'', disse Sala. ''No século 19, nós tínhamos a figura do conaisseurship, que definia tudo. Mas era assim porque naquela época não tínhamos o raio-X, o raio laser, a análise espectográfica, o infravermelho, a datação por rádio carbono, os raios ultravioleta e diversos outros recursos que são muito importantes na análise da procedência de uma obra.''
A museóloga e colecionadora Mari Marino, diretora do Museu de Arte Sacra de São Paulo, acha a polêmica ''interessante''. E, embora possua peças cuja autoria é questionada, ela diz que não acha a questão ''ofensiva'' da maneira como está se configurando. ''Quem faz parte de uma oficina como a do Aleijadinho não é um artesão qualquer'', diz. ''É uma obra feita com a sua chancela de qualidade, como em tantas outras oficinas.''
Beatriz Pimenta Camargo, diretora do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e proprietária de uma grande coleção de arte, considera que não é razoável cercear o direito dos pesquisadores de emitirem suas opiniões sobre a questão Aleijadinho. Acha que processos judiciais são ''medidas drásticas e ditatoriais, que não fazem mais sentido nos dias de hoje''.
A diretora do Masp diz, no entanto, que ficou ''surpresa'' ao manusear o livro e deparar-se com a tese dos estudiosos. ''É uma coisa muito subjetiva, apoiada somente na impressão, sem base científica. Eu acho que todos os estudos são importantes porque dão uma idéia do valor daquela obra, da sua dimensão, mas esse livro certamente não vai se tornar uma Bíblia da obra do Aleijadinho'', considera.
Especialistas no mercado de arte e estudiosos do barroco estão surpresos com os ânimos envolvidos na questão. ''Desde quando uma obra de arte pode ser caluniada?'', questionou um historiador, que preferiu não identificar-se - para não ser confundido com este ou aquele grupo, ele afirmou.
A publicação de obras contestando critérios consagrados de atribuição de autoria é um fato comum na Europa e nem por isso a discussão vai para os tribunais. ''É apenas a opinião dessas pessoas, não fizeram o livro 'contra' ninguém'', diz o historiador. ''Se a obra pertence à oficina do Aleijadinho, isso não é um desmérito, é uma maravilha'', considera.


