Primeiro longa metragem dos uruguaios Enrique Fernández e César Charlone (experiente diretor de fotografia há muito radicado no Brasil - ''Carandiru'', ''Cidade de Deus''), ''O Banheiro do Papa'' não são, como os mais afoitos podem concluir, as instalações sanitárias de Sua Santidade no Vaticano. O buraco é literalmente bem mais embaixo e mais fundo, na terra latino-americana, e pretexto para o iluminado filme que entra hoje em segunda semana de exibição na cidade (veja a programação de filmes na página 2).
O argumento nos situa em 1988, pouco antes da visita do Papa João Paulo II à pequena localidade uruguaia de Melo, na fronteira com o Brasil. Sondagens preliminares e informais calculam que pelo menos 50 mil pessoas estarão na cidade para ver o visitante. Diante deste evento inusitado, a população de Melo, humilde na grande maioria, acredita com razão que a multidão que acorrerá à cidade vai precisar comer e beber. E que ao final sobrará um dinheiro nunca visto antes, capaz de deixar todos quase ricos.
Beto (César Troncoso, valendo um segundo ingresso), contrabandista de pouca relevância que vive com a mulher e a filha quase moça, está convencido de ser o dono da melhor idéia do ''abençoado'' faturamento: o ''banheiro do Papa''. Em uma palavra, uma cabine com privada onde milhares de peregrinos poderão se aliviar a um preço justo. Mas suas precárias condições econômicas o obrigam a dobrar as idas e vindas de bicicleta através da fronteira, em busca de mais mercadorias sem nota. A mulher de Beto vê o empreendimento como um grande risco, sem garantia de retorno, e a filha quer mais é tentar a sorte na cidade grande como locutora de rádio.
O filme, que incorpora meritoriamente mais de uma dezena de prêmios desde sua estréia ano passado em Cannes, tem uma primeira leitura óbvia, um recorte neo-realista que parece saído de clássicos do histórico movimento italiano dos anos 1950 - ''Milagre em Milão'', ''Ladrão de Bicicletas''. O diretor Fernández nasceu e foi criado em bairros que se parecem muito com Melo, e também por isso aporta ao filme sensibilidade, espontaneidade e novidade, tudo muito verdadeiro.
A solidariedade do povo, os fatos corriqueiros do dia-a-dia, desde comprar um ovo ou pedir uma xícara de arroz até uma ilimitada bebedeira. Está tudo lá, de uma forma cotidiana que é em si mesma uma fundamentação social, naquela maneira um tanto alegre e despreocupada (e irresponsável, acrescentariam alguns) com que o povo da América Latina sabe levar adiante suas desgraças. Isto é, tentar com muita tenacidade não viver a pobreza de forma triste.
Entretanto, ''O Banheiro do Papa'' tem uma carga angustiante oferecida numa segunda aproximação. É o contraste produzido entre as expectativas de redenção econômica despertadas pela visita papal, que se desenha como possibilidade de tirar o povo da miséria, e a realidade dos fatos. Em meio a um desfile de profundos contrastes e duros confrontos, um homem exausto carregando nos ombros uma privada, uma espécie de símbolo sarcástico convertido em esperança de libertação.
O que torna o filme especialmente envolvente é que tudo isto chega calibrado pelo humor e com distanciamento objetivo, sem asperezas ou barulheira, bem distante do filme panfletário que poderia ser em mãos menos criteriosas. ''O Banheiro do Papa'', uma agridoce crítica sócio-econômica, é filme de sonhos quixotescos e esperanças frustradas. Mas vale bem lembrar que muitas vezes é mais importante o caminho percorrido do que o prêmio ao final da viagem.

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