Depois de tanto tempo vivendo o estereótipo dos ‘‘peles vermelhas’’ dos faroestes, os índios norte-americanos resolveram pegar na câmera para mostrar uma visão própria de seu mundo e de si mesmos.
Os três primeiros longas-metragens de ficção realizados por índios dos Estados Unidos foram apresentados no Festival de Cinema de Amiens (Norte da França), que se realiza até o próximo dia 15.
Os filmes ‘‘Smoke signals’’, do cheyenne Chris Eyre, ‘‘Naturally native’’, de Jennifer Wynne Farmer e Valerie Red-Horse (Cavalo vermelho), e ‘‘Tushka’’, de Ian Skorodin, foram escritos, produzidos e dirigidos por índios.
Valerie Red-Horse enfatiza que seu ‘‘Naturally native’’ foi totalmente financiado pela tribo Piquots (Connecticut).
Brincando bem-humoradamente com os estereótipos folclóricos, estes cineastas, todos eles com menos de 40 anos de idade, fazem um retrato dos jovens índios que tentam viver ‘‘entre dois mundos’’, tanto em busca de sua identidade como, ao mesmo tempo, de um lugar na sociedade contemporânea.
‘‘Sabemos de onde viemos, sabemos para onde vamos. O mais difícil é ficar entre as duas coisas’’, diz um dos personagens de ‘‘Naturally native’’.
‘‘Smoke signals’’, adaptação de contos do escritor Sherman Alexie, também índio, conta as aventuras de Victor (Adam Beach) e de Thomas Builds-The-Fire (Feito pelo fogo, Evan Adams) durante a viagem que fazem de uma reserva de Idaho até o Arizona, num trajeto destinado a resgatar as cinzas paternas.
Victor acaba de saber da morte de seu pai, desaparecido quando ele era menino em função do alcoolismo, uma verdadeira praga nas reservas indígenas, tema que também é tratado em ‘‘Naturally native’’.
Divertido e terno, ‘‘Smoke signals’’ mostra como os dois jovens índios se sentem estrangeiros em seu próprio país, depois de terem atravessado as fronteiras da reserva.
Uma viagem à fonte da memória, ‘‘Naturally native’’ é um filme autobiográfico: ‘‘É a história da minha vida, do caminho que percorri para recuperar minha identidade’’, declara Valerie Red-Horse. Depois da morte de sua mãe, também vítima do álcool, três irmãs índias são adotadas por famílias brancas.
Anos depois, quando decidem montar uma empresa, se chocam com a burocracia (os índios têm direito de ajuda, mas elas não podem revelar que são índias), com os charlatãos que exploram a moda ‘‘new age’’ de uma pseudofilosofia indígena e, inclusive, com a desconfiança dos próprios índios.
Por fim, o filme ‘‘Tushka’’, do choctaw Ian Skorodin, evoca a sangrenta repressão do FBI contra o American Indian Movement nos anos 70, em um tom de cinema militante.ReproduçãoO índio cheyenne Duas Luas fotografado por Edward Sheriff Curtis (1868-1952) no início do século: hoje os descendentes da tribo fazem cinema para mostrar o choque cultural dos jovens que vivem ‘‘entre dois mundos’’Marie-Thérese Delboulbes
France Presse

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